ILUSTRADO
Terça-feira, 31 de Agosto de 2010, 19h:42
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CINEMA
Começa hoje o 67º Festival de Veneza
Participam do evento neste ano muitos filmes europeus, muitos norte-americanos, alguma coisa da Ásia e uma solitária presença latino-americana, um filme chileno
Luiz Zanin Oricchio
Agência Estado
Com a exibição de "Black Swan", de Darren Aronofsky, começa hoje (01) a disputa pelo Leão de Ouro da 67 ª edição do Festival de Veneza. O que se sabe do filme é que se trata de um thriller psicológico, com Natalie Portman no papel de Nina, primeira-bailarina que se enreda numa louca competição com uma recém-chegada à companhia, Mila Kunis. Aronofsky dá sorte em Veneza: já ganhou seu Leão de Ouro em 2008 com "O Lutador", filme estrelado por Mickey Rourke. Tenta agora o segundo, uma façanha para poucos. Para tentar reeditar a conquista de "O Lutador", Aronofsky terá de entrar na arena e enfrentar outros 23 competidores, a maior parte deles em condições teóricas de enfrentá-lo. Um desses 23 ninguém sabe ainda qual é: o filme-surpresa será revelado só no dia 6. Entre os outros, há gente como Sofia Coppola ("Somewhere"), Vincent Gallo ("Promises Written in Water"), Abdellatif Kechiche ("Venus Noire"), Tom Tykwer ("Drei"), nomes conhecidos do circuito dos festivais. Concorrentes fortes, portanto, embora não haja, este ano, disputando o Leão, aqueles "nomões" de sempre, os bichos-papões de prêmios no circuito top dos festivais europeus. Na composição, digamos assim, geopolítica da mostra principal não houve surpresa. Muitos filmes europeus, muitos norte-americanos, alguma coisa da Ásia e uma solitária presença latino-americana - Pablo Larraín representa o Chile, e a América do Sul, com seu "Post Mortem". O Brasil, mais uma vez, ficou fora da competição principal. O único longa-metragem dirigido por um brasileiro é "Lope", de Andrucha Waddington, e passa fora de concurso. É uma coprodução com a Espanha e retrata a vida do poeta e dramaturgo do século de ouro espanhol Félix Lope de Veja. Outro representante brasileiro é o curta "O Mundi É Belo", de Luiz Pretti. E é só. Na coletiva de imprensa em que anunciou a programação, o diretor do festival, Marco Müller, disse que em 2010 se conseguira a mais baixa média etária dos diretores concorrentes em muitos anos. Saudou o fato como índice de renovação. Rejuvenescimento, sabemos, não é sinônimo de qualidade, ou de ousadia. Em todo caso, os filmes serão avaliados pelo júri presidido por um nome que é ícone entre jovens - Quentin Tarantino. Seus companheiros são o roteirista e diretor mexicano Guillermo Arriaga, a atriz lituana Ingeborga Dapkunaite, o cineasta e roteirista francês Arnaud Desplechin, a cantora norte-americana Danny Elfman e os diretores italianos Luca Guadagnino e Gabriele Salvatores. A disputa pelo Leão de Ouro, na mostra intitulada Venezia 67, é o filé mignon do festival. Quem se dispõe a acompanhá-lo tem de ver, por dever de ofício, todos os seus 23 concorrentes. Mas a verdade é que o festival não se resume à competição principal. Veneza reserva outra mostra interessante, a "Horizontes", destinada a filmes de caráter mais experimental, ainda que o termo seja ambíguo. Essa seção foi criada em 2004 para abrigar "novas tendências do cinema mundial". Neste ano, ela se reinventa, abrindo espaço para suportes e durações diversos. Por exemplo, os médias-metragens que, em geral, caem no limbo, terão vez na "Horizontes". Em todo caso, é na "Horizontes" que, muitas vezes, se abrigam os títulos mais interessantes da mostra. Lá estará a francesa Catherine Breillat com "La Belle Endormie" e o espanhol José Luis Guerin, com "Guest". São filmes para não perder. COMÉDIAS - Assim, como não dá para recusar o convite para assistir a algumas comédias italianas, na seção chamada de "A Situação Cômica" é composta de filmes restaurados. Como resistir à tentação de ver, na tela grande e em cópia zero-quilômetro, velhos filmes de Dino Risi ("Il Giovedì") ou Ugo Tognazi ("Il Mantenuto")? Os donos da casa, aliás, criaram novo espaço para abrigar a produção local - a mostra "Contracampo Italiano", reservada aos nacionais. Dessa forma, parece, procura-se atenuar a luta fratricida por vaga na mostra principal. A "Contracampo" será também competitiva e pode conter algum ouro escondido. Vale uma espiada atenta. Fora de concurso também há muita coisa imperdível. É nessa seção, por exemplo, que está "Lope", do nosso Andrucha. Mas quem se atreveria a perder "Sorelle Mai", o mais recente trabalho de Marco Bellocchio? Bellocchio, que está em cartaz em São Paulo com um filme magnífico, "Vincere", andou meio estremecido com Veneza desde que foi injustiçado com uma obra-prima como "Bom Dia, Noite", sobre os anos de chumbo da política italiana. Quem recebe o Leão de Ouro pela carreira este ano em Veneza é um cineasta amado pelos que curtem filmes de ação, John Woo. E a homenagem desta edição vai para o imenso ator Vittorio Gassman, morto há exatamente dez anos. O festival foi aberto com a exibição em praça pública no Campo San Polo, na Veneza histórica, de "Perfume de Mulher", um dos seus grandes papéis, sob a direção de Dino Risi. Também está programada a projeção do documentário "Vittorio Raconta Gasssman, Una Vita da Mattatore", de Giancarlo Scarchili, com a colaboração de Alessandro, filho de Gassman. Gassman, pai, dizia que uma vida só não bastava para o ser humano. Seria preciso no mínimo duas - uma para ensaiar, outra para viver. Também para quem acompanha um festival desse tamanho seria necessário contar, pelo menos, com a ajuda de um clone.