Gotas milagrosas brotam de olhos mudos. Olhos calados em amor. Emotivos. Conhecem apenas o belo. Nasceram para a vida. Olhos dignos de lágrimas em poesia. Encantado chora seu prazer pela vida. Chora enquanto ouve o canto das aves e o sussurrar dos ventos. Chora as vezes por desejo de ver tudo ao seu redor. Como não consegue ver resolve sentir. Sai lentamente apalpando a vegetação ao redor. Escorrendo pelas frestas dos barrancos. Sentindo toda a magia do lugar. Faz do próprio choro seus braços e sai serpenteando atrás das descobertas. Ensimesmado na própria magia. Encerrado na grande emoção de vivenciar a liberdade. A felicidade cresce e as lágrimas aumentam. Os sonhos ganham vida. Não consegue mais se conter e parte em busca de novos mundos. Precipita numa longa marcha rumo ao vale que se estende á frente. Brinca com as luzes e se envaidece com a passagem gloriosa. A procissão aos poucos vai crescendo e se agiganta a cada curva. Várias espécies resolvem aderir ao movimento. Quando os obstáculos surgem fazem grande algazarra. Chamam a atenção de todos. A marcha é pacífica. Deixa apenas o bom exemplo. Os paredões rochosos observam calmamente a bravura daquelas lágrimas. Elas só querem interagir com o meio ambiente. Fazem tudo que podem pelo caminho para serem amadas. Irrigam as plantas, lavam as pedras dos morros e matam a sede dos habitantes da floresta. Transportam os viajantes e abrigam os peixes. Em troca querem apenas seguir adiante descobrindo a vida. Palmilhando a natureza. Afinal, são apenas gotas sonhadoras que nasceram de olhos que nada enxergam. Emocionam! Lacrimejam gotas transparentes que se derramam em nobres encantos úmidos. Como rosas nas manhãs de primavera. Transpiram frescor, charme e beleza pela encosta sinuosa. Circundam velhos paredões. Entusiasmam os vales. Crescem com a cumplicidade dos aliados. As matas, emprestam o verde e o céu o azul cor de anil. Todos torcem para as lágrimas dos olhos que nada vêem. Apenas emocionam! Adiante uma cidade se desponta como um oásis em meio ao Cerrado. Surge acomodada no fundo de uma grande taça. Seduzida, as lágrimas descem para conhecer as pessoas e lentamente vai margeando a cidade. A população reage. Agride. As lágrimas buscam abrigo entre batumes e sarãs. Mas não escapam da violência. Os peixes, que eram grandes aliados, morrem. A saga de um olho que nada vê chega ao fim. As descobertas são imprevisíveis. Causam destruições. Mortes traumáticas de inocentes dádivas que nasceram apenas para o amor. *Luís Gonçalves é publicitário, escritor e colabora com o Dc Ilustrado (
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