ILUSTRADO
Segunda-feira, 14 de Maio de 2012, 21h:23
A
A
ACADEMIA
Cerrados mato-grossenses
O cerrado mato-grossense é todo um encantamento, qual um parque criado com requintes de gosto, espontaneidade e mistérios, diferente de tudo o que o homem poderia ter feito. Tudo no cerrado parece estar trocado, errado, fora do lugar... As árvores, geralmente pequenas, parecem caprichosamente contrariar a natureza na formação de troncos e ramos. Aqui, algumas se lançam em linha horizontal ao solo, serpenteando em curvas como querendo entrar novamente dentro da terra para logo bruscamente erguerem os galhos para o céu, quais enormes e rugosos candelabros. Ali, outras, muito esguias, elevam-se eretas, para exibirem como copas, um tufo de largas e ásperas folhas verde-pardacento, enquanto que muitas bem baixotinhas e repolhudas com os ramos roçando a macega, parece que tiveram preguiça de crescer. De vez em quando uma palmeira, ora do tipo anã, ora alta e esbelta com a verde cabeleira ondulando ao vento. As flores dos nossos cerrados, então, são de uma variedade infinita, delicadamente perfumadas e de uma beleza imensa, vivendo numa combinação tácita de quando umas desaparecem, desabrocharem logo outras. São, porém, muito silvestres e não gostam de serem colhidas, quando apanhadas, murcham e morrem em nossas mãos. São as orquídeas muito femininas, sentem-se bem quando levadas para os nossos jardins ou ficam dias e dias embelezando e perfumando nossa casa. A visão no cerrado é curta. Num raio de trezentos a quinhentos metros, temos nosso olhar confuso no entrelaçamento dos troncos bizarros, nesse mundo de cores em que entram todas as tonalidades do verde e se destaca aqui e ali o vermelho-rubro das folhas velhas ou que vai esmaecendo até o rosa nacarado das orquídeas até chegar o amarelo gritante dos paratudos e sempre, sempre tudo riscado pelos milhares de brilhantes, os pequenos insetos também multicoloridos e de asas transparentes. Os ruídos são em surdina, musicalmente sacros, suspensos no ar, cortados, porém, três vezes por dia, pela manhã, na metade do dia e ao entardecer pelas cigarras que desandam a assobiar estridentemente em todas as direções. Sempre sentimos suaves brisas refrescantes que parecem ser feitas especialmente para misturarem os mil aromas e darem ao nosso olfato, esquisitos e variados perfumes, numa mistura de flores, folhas, terra e bichos. Quando a tarde vai morrendo, vão chegando as sombras das árvores, mais fantasmagóricas e misteriosas que elas. E aos poucos, enquanto a noite vai atirando seu negro manto, vão se confundindo árvores e sombras num aconchego terno com os longos braços da escuridão enlaçando tudo. Se, porém, a noite for de luar, o cerrado ficará transformado em pura prata lavrada. Passam assim os dias do estio, quando um dia o fogo invade tudo, num crepitar ruidoso e ensandecido. Ronca e urra em estertores tremendos e as lavaredas trepam acrobaticamente pelos gretados troncos e queimam até as copas. As palmeiras balançam doidamente suas cabeleiras de fogo. Nada fica. O verde foi substituído por um negrume estéril enquanto rolos de fumaça escurecem o sol, causando-nos desespero e opressão, pois parece que tudo terminou, no meio daqueles dedos retorcidos e negros, apontando para o céu. Mas não passarão muito dias, o cerrado com sua fertilidade assombrosa, dará os primeiros sinais de vida com os pequenos brotos verdes e aveludados surgindo em todos os lados. Recomeçará assim toda a sinfonia colorida que nos fará esquecer a aflição passada. E assim, depois das primeiras chuvas quando todos os troncos ficarão lavados do negror e entrarão novamente em plena beleza e floração, seremos novamente tentados a outras caminhadas pelos lindos cerrados mato-grossenses. Acadêmica Vera Yolanda Randazzo - cadeira 19