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ILUSTRADO
Terça-feira, 13 de Maio de 2008, 21h:02

FESTIVAL

Cannes à espera do Brasil

Luiz Carlos Merten
Agência Estado/Cannes
Luz, câmera, ação! A maratona recomeça hoje e, desta vez, logo em seu primeiro dia, o 61º Festival Internacional de Cannes, o mais importante evento de cinema do mundo, estende o tapete vermelho para o... Brasil. OK, "Blindness" ("Ensaio sobre a Cegueira") é falado em inglês, o Brasil, por meio da O2, é apenas produtor associado com o Canadá e o Japão, que são sócios majoritários, mas o diretor é brasileiro, Fernando Meirelles, e isso faz toda a diferença. Meirelles conseguiu, inclusive, que a sofisticada mixagem de som de "Blindness" fosse feita num laboratório de São Paulo - Álamo -, que foi especialmente (re)aparelhado para isso. Já virou lugar-comum lembrar, a cada ano, que Cannes é um retumbante evento midiático. Sem contar os milhares de compradores, vendedores ou simplesmente ‘olheiros’ credenciados no mercado (o Marché des Films), o número de artistas e técnicos supera o de atletas inscritos para a Olimpíada de Pequim. O número de inscrições, entre críticos, repórteres e fotógrafos, mais pessoal de TV e internet, atingiu, no ano passado, o fantástico número de 4,7 mil jornalistas de todo o mundo - que deve ser superado para a cobertura deste 61º festival. Passado o suspense da primeira lista da seleção oficial - que inclui a competição e a mostra "Un Certain Regard" -, "Blindness" não apenas estará na Croisette como foi o escolhido para a abertura. Fernando Meirelles deve pisar hoje no tapete vermelho com seu elenco internacional - Julianne Moore, Mark Ruffalo, Danny Glover, Alice Braga. Há grande expectativa por "Blindness". O romance do escritor português José Saramago usa a cegueira para tecer uma metáfora sobre o mundo que se recusa a ver a loucura e o caos em que o consumismo e a degradação do meio ambiente estão nos atirando, com conseqüências seriíssimas para o futuro da humanidade. É outra espécie de violência, distinta daquela que Fernando Meirelles enfocou em "Cidade de Deus", com o qual pisou pela primeira vez no tapete de Cannes. Visualmente, o filme vai surpreender, pois o diretor e seu grande fotógrafo, César Charlone, se valeram da cegueira branca descrita pelo autor do Prêmio Nobel de Literatura para fazer o contrário do que se espera de um filme sobre a cegueira - em vez de áreas de sombras, eles criam imagens saturadas de luz. A seleção que o diretor artístico Thiérry Frémaux preparou para este ano reúne grandes nomes do cinema mundial, além de representantes do cinema de autor. Clint Eastwood, Jia Zhang-Ke, Lucrecia Martel, Paolo Sorrentino, Arnaud Desplechin, Philippe Garrell, os irmãos Dardenne, James Gray, Walter Salles e Pablo Trapero, além do próprio Meirelles, estão na disputa pela cobiçada Palma de Ouro. É um ano glorioso para o cinema latino-americano - dois filmes da Argentina ("La Mujer Sin Cabeza" e "Leonera"), três diretores do Brasil (Meirelles e Walter Salles e Daniela Thomas, que co-dirigem "Linha de Passe", no sábado). Este ano, os filmes fora de competição incluem desde o esperadíssimo Indiana "Jones e a Caveira de Cristal", no domingo, em presenças do diretor Steven Spielberg, do produtor George Lucas e dos astros Harrison Ford e Shia Labeouf, o Maradona de Emir Kusturica (na terça), o novo Woody Allen (Vicky Cristine Barcelona) e até uma fantasia de artes marciais que promete arrebentar nas bilheterias ("Kung Fu Panda", de Mark Osborne e John Stevenson). É a lição de Cannes - o festival não seria o portentoso evento que é, se não se beneficiasse do aporte que certos blockbusters lhe trazem, em termos de promoção. E, depois, quem foi que disse que os cinéfilos - desde que não sejam pobres de espírito - não estão igualmente loucos para ver tanto novo Indiana Jones quanto o novo filme dos Dardennes ("Le Silence de Lorna")? Mais do que em qualquer ano recente, o Brasil chega a Cannes com força total. Além de "Linha de Passe", que compete pela bandeira do Brasil, a seleção oficial exibe também "A Festa da Menina Morta", de Matheus Nachtergaele, na mostra "Um Certo Olhar" e mais algumas atrações que não deverão passar em branco. O documentário "O Mistério do Samba", de Carolina Jabor e Lula Buarque de Hollanda, foi selecionado para a mostra Cinéma à la Plage, que apresenta filmes à noite, ao ar livre, na praia colada ao calçadão conhecido como ‘Croisette’, e os curtas "Areia", de Caetano Gotardo, e "A Espera", de Fernanda Teixeira, integram a programação de outra mostra, a da Semana da Crítica. Um terceiro curta, "Muro", de Tiao, Leonardo Lacca e Raul Luna, foi selecionado para a Quinzena dos Realizadores e mais um - o quarto - "O Som e o Resto", de André Lavaquial, da Escola de Cinema Darcy Ribeiro, do Rio, compete na mostra da Cinéfondation Além dos elencos nacionais de "Linha de Passe" e da "Menina Morta", Alice Braga participará da ‘montée des marches’ (a subida da escadaria do Palais) por "Blindness", e Rodrigo Santoro estará junto às equipes dos dois filmes dos quais participa - "Che" e "Leonera". O júri que vai atribuir a Palma de Ouro do 61º festival será presidido pelo ator e diretor norte-americano Sean Penn. Entre os demais jurados estão atores e atrizes como Jeanne Balibar (da França), Sérgio Castelitto (Itália) e Natalie Portman (EUA), mais os diretores Alfonso Cuarón (do México), Apichatpong Weerasethakul (Tailândia), Rachid Bouchareb (França, ascendência algeriana) e Marjane Satrapi (Irã). O júri de "Un Certain Regard", mostra na qual estará competindo Matheus Nachtergaele, será presidido por Fatih Akin e Bruno Dumont e atribuirá a Caméra d’Or, prêmio destinado a uma obra de diretor estreante (Nachtergaele, de novo, está habilitado para concorrer). Não faltará uma sessão-homenagem ao centenário do cineasta português Manoel de Oliveira, na segunda-feira à tarde. E, como todo ano, a ‘lição de cinema’ deverá atrair um público numeroso e entusiasta, formado principalmente por jovens interessados em ouvir grandes diretores falarem de seus métodos (e preferências). Este ano, quem dá a ‘leçon de cinéma’ é Quentin Tarantino, cultuadíssimo na Croisette, onde já ganhou a Palma de Ouro (por "Pulp Fiction - Tempo de Violência") e presidiu o júri. E ainda: a mostra Cannes Classics, que exibe filmes restaurados, vai homenagear Maio de 68 - lembrando o festival que não houve. Na abertura, Peppermint Frappé, de Carlos Saura, mas sua pérola será a versão restaurada de "Lola Montès", de Max Ophuls, supervisionada pelo filho do grande diretor, Marcel Ophuls. O 61.º Festival de Cannes termina no domingo, dia 25.

Edição EDIÇÃO 16962




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