ILUSTRADO
Sábado, 15 de Agosto de 2009, 13h:00
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MÚSICA
Ball e piano fronteiriço entre o blues e o country
Nascida na cidade de Janis Joplin, ela cresceu na fronteira entre Texas e Louisiana
Jotabê Medeiros
Agência Estado
Uma das mais célebres canções dos Rolling Stones é Honky Tonk Woman, que falava de uma "rainha de boteco de Memphis" que tocava o "honky tonk blues" e encantava o incauto, e depois sumia com ele escadaria do bar acima. Agora, São Paulo vai conhecer a verdadeira "honky tonk woman", que não tem nada de traiçoeira. A comprida e branquela pianista, cantora e compositora texana Marcia Ball, de 60 anos, é possivelmente a mais formidável representante de um gênero fronteiriço americano - a junção do blues com o boogie-woogie, do country com os sons dos pântanos da Louisiana. Seu "cajun texano" é a principal atração do festival Bourbon Street Fest, que completa 6 anos como uma ponte musical entre berços culturais - Nova Orleans e São Paulo. Marcia desembarcou ontem no País pela primeira vez, para shows em São Paulo, no Parque do Ibirapuera. "Paz, amor e churrasco" (Peace, Love and BBQ) é o título do disco de Marcia lançado em 2008, no qual ela toca com convidados como Dr. John, Terrance Simien e Tracy Nelson. Discípula de Irma Thomas e Professor Longhair, duas lendas sulistas do soul e do funk, ela é uma divertida e erudita figura que já foi indicada para dois Grammys e ganhou o título de Pianista do Ano duas vezes no tradicional Blues Music Award. Em 1999, tocou com B.B. King na Casa Branca, residência presidencial, em programa transmitido nacionalmente. Nascida em Orange, Texas (mesma cidade natal de Johnny Winter e Janis Joplin), ela cresceu em Vinton, na fronteira entre os dois Estados americanos, Texas e Louisiana. Tocava piano desde os 5 anos, e a sua mistura, notoriamente original por conter elementos das duas terras, tem reconhecimento em todos os quadrantes. "Sua voz pode quebrar seu coração com uma balada ou quebrar sua espinha com um rock", escreveu um jornalista do Boston Herald a respeito da pianista-cantora Marcia Ball. A crítica a define como um carrossel de emoções movido a comida cajun, picante e incendiária. Mas a característica mais forte da música de Marcia é a que dá fricção na cintura, e que vem do R&B - que ela assimilou de uma de suas mais fortes influências, Professor Longhair (1918-1980), um pianista e cantor de Bogalusa, Louisiana, que turbinou as teclas de todas as gerações subsequentes, de Allen Toussaint a Diana Krall, com um blues tingido por rumba, irresistível blitz musical. Em entrevista ao Grupo Estado, Marcia falou sobre essa característica de contínua assimilação do blues, que faz com que o gênero se apresente sempre com um novo frescor. Falou de sua admiração por Irma Thomas, do novo disco de Allen Toussaint, da crítica musical e da vontade de aprender alguma coisa suficiente em português para poder perguntar pelo banheiro feminino antes de chegar ao País. Ela toca com um quinteto, que influi saxofone, guitarra, tuba, bateria e voz, piano e teclados. P - Como foi o começo de sua carreira? R - Eu comecei tocando numa banda de country progressivo chamada Freda and the Firedogs. No tempo em que cursei a Louisiana State University, também toquei blues rock numa banda chamada Gum. Já fui roqueira. Mas o que estou tentando fazer com minha música é dissolver a fronteira entre essas regiões. Não se trata apenas de uma cidade aqui e outra ali, é uma ampla área com distintas tradições musicais, que são ao mesmo tempo muito similares. Há uma forte herança musical ali, muitos artistas consagrados vêm da região. Eu nasci na mesma cidade de Johnny Winter e Janis Joplin. É de onde eu venho, da Costa do Golfo do México, e eu tento honrar aquela tradição. E, se possível, fazer todo mundo dançar. P - Janis Joplin, sua conterrânea, conseguiu um feito notável - ela cantava o blues, mas conseguia fazer uma mistura urbana, nervosa, que criou seguidoras no mundo todo. É essa também sua ambição, partir da tradição para levar o gênero à frente? R - Os estilos musicais não são tão simples como pensamos, são muito complexos. O blues do delta do Mississippi e a tradição jazzística sempre tiveram a característica de emprestar algo de outros gêneros. Eles sempre estiveram em movimento, assimilando formas da country music, das big bands de jazz. Nós todos ali crescemos sob essa perspectiva. Janis Joplin era uma cantora de folk music que se deixou influenciar imensamente por Bessie Smith, uma cantora de blues, aquele tipo de blues lento. Janis Joplin viu que aquilo poderia funcionar para o rocknroll, e acabou tornando-se uma referência pela ousadia. P - E a sra, também teve um modelo como cantora? R - Sim, é claro. A primeira e mais importante é Irma Thomas. Eu a vi pela primeira vez cantando quando eu tinha 13 anos, em 1962 Nunca esqueci aquela noite, o jeito dela cantar, a sua presença de palco. Ela permanece sendo muito importante para mim. Sua atitude, o posicionamento político, a forma de se preocupar com as outras pessoas, o altruísmo. Em 1997, tive a honra de me tornar sua colaboradora e amiga. Gravamos um disco chamado Sing It!, que foi lançado em 1998 e indicado para um Grammy e o Blues Music Award. Etta James é outra grande influência para mim. Mas eu também fui influenciada pela música psicodélica dos anos 60 e 70. É outra faceta da minha formação. P - A sra. ouviu o novo disco The Bright Mississippi, de Allen Toussaint? R - Rapaz, não é maravilhoso aquilo? É claro que ouvi. Toussaint, como compositor, é outra de minhas influências. Cria arranjos maravilhosos para as músicas. Ele toca aquelas canções da nossa memória e não há um só clichê no disco, só pulsões novas, paisagens novas. P - A sra. tem um jeito muito interessante de falar sobre música Daria uma boa crítica de música... R - Uma vez pensei sobre isso. Se não fosse me tornar uma compositora, talvez eu ficasse de olho no seu trabalho... (risos) P - É sua primeira turnê pelo Brasil. O que sabe sobre a música do País? R - Devo confessar que estou tão entusiasmada quanto temerosa. Estou realmente despreparada para conhecer o seu País. Não sei de nada, e alguns amigos me descreveram seu País como divertido e cheio de surpresas. Quero dedicar essa semana a aprender algumas palavras, como "por favor", "como vai" e "onde é o banheiro das senhoras?". Essa última eu tenho realmente de aprender. P - Como foi ter sido escolhida para tocar no filme de Martin Scorsese por Clint Eastwood? R - Foi uma grande honra, especialmente porque eu pude ser vista tocando ao lado de algumas lendas da música, como Jay McShann, Henry Gray, Dave Brubeck. Ter sido escolhida foi algo que me deixou tremendamente lisonjeada. O filme é um interessante exame da fundação do jazz, soul, R&B e rocknroll, de suas raízes africanas até o desenvolvimento no Delta do Mississippi, subindo o rio até Memphis e Chicago, e indo até o Reino Unido.