ILUSTRADO
Sábado, 18 de Dezembro de 2010, 12h:58
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EXPOSIÇÃO
Arte com cheiro de sol e terra molhada
Instigada pelo papel dos sentidos na interação com a obra de arte (expressão de que ela não gosta, por considerar "elitista"), a artista buscou apoio de uma química da USP
Roberta Pennafort
Agência Estado
"Cheirei muito neste último ano e meio", brinca Josely Carvalho. A artista multimídia paulistana, radicada nos Estados Unidos há 46 anos, demorou a se satisfazer com o material para a mostra "Nidus Vítreo - Diário de Cheiros", que abriu semana passada, no Museu Nacional de Belas Artes, no Rio. Queria transformar algo completamente abstrato e fugaz em obra de arte. Cheiro de sol quente? De ninho? De terra molhada? De mar? Como defini-los, e pior: como reproduzi-los, numa sala de exposições? Instigada pelo papel dos sentidos na interação com a obra de arte (expressão de que ela não gosta, por considerar "elitista"), Josely procurou uma química, pesquisadora da USP. Ela lhe indicou a empresa suíça Givaudan, que desenvolve perfumes e matérias-primas para fabricação de fragrâncias. "Eu não tinha a menor ideia de como fazer isso. Não há vocabulário para explicar ou desenvolver cheiros", conta Josely. A curadoria é de Laura Abreu. A trilha que acompanha as obras é do norte-americano Paul Geluso. Na abertura, terça-feira à noite, ela se surpreendeu. Não só com a aceitação da provocação pelos visitantes, que se puseram a experimentar os cheiros, mas também com a presença de 250 pessoas - chovia muito e seu nome não é muito conhecido no Rio. "O curioso é que as pessoas começam imediatamente a falar delas, de memórias, de uma situação específica a que são remetidas. Recomendei que visitassem o blog (www.joselycarvalho net/blog/diaryofsmells) e deixassem suas experiências." Na entrada, está a escultura de ninho que dá nome à mostra (Nidus Vítreo é "ninho de vidro" em latim). O cheiro emanado pela estrutura de grande beleza visual é o mais sutil dos quatro que compõem a exposição. A estrutura central levou três anos para ficar pronta (uma versão menor, incompleta, já havia sido mostrada no ano passado no MAC-USP). Para chegar até o resultado final, Josely coletou galhos de árvore em São Paulo, jogados ao chão por um temporal, e, a partir deles, fez moldes de gesso. Em seguida, adicionou cobertura em resina. Caixinhas colocadas entre os mil galhos translúcidos, sobre um piso espelhado, exalam o tal odor de ninho - a verdade é que esta obra atrai muito mais pela plástica do que pelo cheiro, que é bem fraquinho. Na mesma sala, dois dispersores acionados por botões pelo visitante, um à esquerda e outro à direita, "soltam" o cheiro de sol quente, bem fresco, primaveril, tropical, e de terra molhada, um tanto diferente do que aquele que se sente no ar num dia de chuva. "Pensei em terremoto, vulcão. A mesma terra que nos acolhe nos expele. É preciso tomar cuidado com o nosso ninho", diz Josely, referindo-se à relação do homem com o planeta em que vive. Na segunda sala, outro dispersor guarda o cheiro de mar, o único desagradável entre os quatro. O que vem à cabeça é a imagem de peixe estragado. Este está junto a imagens do acidente ambiental ocorrido em abril no Golfo do México, o maior da história dos Estados Unidos, com milhões de litros de óleo despejados sobre as águas e a fauna marítima. Nas paredes, fotografias de um pássaro que ela viu chocar-se contra a janela de uma casa em Connecticut. Basta olhar para o bico da ave para reconhecer ali fios que compunham um ninho que a "ave suicida", "atraída pela própria imagem no vidro", construía. As fotos foram photoshapas com outras que ela tirou da cama que usou numa viagem a São Paulo. O conjunto foi exibido junto ao ninho no MAC-USP. Josely nasceu na cidade e se mudou para os Estados Unidos para estudar. Era 1964, o clima no Brasil já era de preparação para o golpe militar que viria em 31 de março, e Josely era uma jovem em busca de uma vida mais livre. Escolheu estudar arquitetura na Washington University, no Missouri. Nunca mais morou no Brasil. Viajou os EUA, casou-se, foi mãe, lecionou e morou no México e pousou em Nova York em 76. Na última década, montou um ateliê/apartamento no Leblon, para ficar perto da mãe, que acabou morrendo em 2002. É a primeira individual no Rio - segundo ela, faltava convite.