ILUSTRADO
Sexta-feira, 05 de Setembro de 2014, 20h:24
A
A
CRÔNICA
Aonde dá a onda
A única possibilidade é encarar. Ir sempre em frente. Chegar o quanto antes diante do inevitável e, sim, afundar! No mergulho mais profundo que puder
Valéria del Cueto*
Especial para o DC Ilustrado
Tá no mar? Dentro dagua? Pagou pra ver? Então se prepara... Nada num dia é igual após o outro. Às vezes, mansa. Outras, com marola. A vida pode ser um sossego com céu de brigadeiro. Assim meio lagoa, tipo piscininha. Verde esmeralda, azul translúcido. Água tépida, boa para boiar e nadar. Essa é a praia ideal? Para alguns, talvez. Para outros, nem tanto. Nada é permanente. Ondas, elas tem que existir. É o ir e vir. Delas dependem as manobras, o desenho riscado nos picos no ritmo inconstante ditado pela força do mar. Bom para os atletas observadores dos ventos que acariciam ou açoitam a superfície e atiçam as correntes marinhas. Vento que venta na direção do instante, ainda fácil de dominar com alguma habilidade. Longos mergulhos, o vai e vem praia e espera, depois da arrebentação. Na beira, é como pular corda. Tem que saber a hora de entrar e sair, o momento certo de chegar e agir. Quanto mais alto, maior o risco, aumenta a emoção. O fator que amplia o tempo da descida pode ser decisivo. Ir ou não ir. Domar, evoluir ou tomar. Tudo ali, nas mãos, braços e pés de quem se lança, ainda por opção. Respiração, força e ação. Também há a tempestade. Viração sem perdão nem piedade. Tudo forte, ligeiro, pauleira, inexorabilidade. Parece que não termina porque não há escolha, nem previsibilidade. O quase eterno sopro do gigante. Uma magistral virada no vento e o oceano ruge. Engole que nem fera. Exigindo concentração, esforço e braçada. O segredo é não parar nem recuar. Enfrentar de peito aberto o maior e mais forte. Seguir mar a dentro enfrentando o perigo. Único caminho para fugir da área crítica. Mesmo sem saber o que está por trás da gigantesca massa de água. Compacta e apavorante ela cresce cada vez mais. Domina a visão, sugestiona a mente. Perdendo o fôlego, engolindo o medo, braçada após braçada, só resta aumentar sempre - o ritmo. Na cabeça só foco e certeza. A falta de uma braçada pode ser o que separa a parede demolidora nas costas da proteção das profundezas. Ali, onde será possível aproveitar o repuxo avançando um pouco mais para fora do espaço que separa uma última chance do nada indesejável. A fera cresce pronta para devorar ou, pior, cair como uma bigorna de milhões de quilos sobre o espaço no qual sabemos - somos apenas um elemento a mais. Sem preconceito, sem escolha. Por que ali, como na vida, quem decide é ela. Por incrível que pareça, a única possibilidade é encarar. Sempre em frente. Fazer o possível para chegar o quanto antes diante do inevitável e, sim, afundar! No mergulho mais profundo que puder. Depois é rezar para conseguir emergir e respirar novamente, antes de olhar o que havia por trás do monstro. Talvez outro, maior ainda. E, aí, como na vida, saber que só há um jeito, começar tudo de novo: nadar, rezar e acreditar... *Valéria del Cueto é jornalista, fotógrafa e gestora de carnaval e colabora com o DC Ilustrado. Essa crônica faz parte da série Ponta do Leme, do SEM FIM... delcueto.wordpress.com