ILUSTRADO
Sábado, 18 de Dezembro de 2010, 13h:03
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ENTREVISTAS
Acolônia italiana sempre prestou inestimáveis serviços a Cuiabá e a Mato Grosso
Evaldo de Barros
Especial para o Diário de Cuiabá
Acolônia italiana sempre prestou inestimáveis serviços a Cuiabá e a Mato Grosso. Sem a preocupação de identificar quem fez mais pela capital mato-grossense apontam-se, dentre outros, Chico Mechi, Irmãos Dorsa, Scarcelli, Nigro, Fioravanti Barbieri, Cyriaco Candia, Laraya, Orlando, Ermete Ricci, Nino Ricci, Fortunato, etc. Na nossa entrevista de hoje, ocupamo-nos do Sr. Ermete Ricci e, ninguém melhor que ela, pode falar do próprio pai. Referimo-nos à querida Gilda Ricci Rabelo Leite nascida na Bolonha, Itália, em 26 de outubro de 1929, filha de Ermete e de D. Maria, e que já em fevereiro de 1930, veio para o Brasil e, em Cuiabá, sua segunda terra natal, construiu uma vida de amizades eternas. Registre-se que D. Maria veio com o marido em 1922 e em 1929, estando grávida de Gilda, retornou à Itália para fazer o pré-natal e ali ficou para o parto, pois a medicina em Cuiabá ainda era deficiente. Gilda é alegre, extrovertida, religiosa, foi casada com o saudoso José Rabelo Leite, bancário do Banco do Brasil e um dos mais laureados locutor, animador de auditório e produtor do rádio cuiabano. Rabelo Leite e Gilda formavam um dos casais mais animados e admirados da cidade. Falou em festas, procurem o Rabelo e a Gilda sempre foi voz corrente -. DC ILUSTRADO - Conte-nos do seu pai, D. Gilda. D. GILDA - Meu pai Ermete Ricci nasceu em Bolonha a 30 de janeiro de 1895 e era filho de Alberto Ricci e D. Gilda Ricci. Com o advento do regime fascista, começou a sofrer perseguições dos partidários de Mussolini o que o levou a imigrar para o Brasil em 1922. Papai veio ao Brasil por via marítima, via Montevidéu, Buenos Aires e Assunção, com vistas a chegar em Corumbá para trabalhar com os parentes ali radicados. Ficou pouco tempo em Corumbá já que, grande mecânico, especializado em máquinas pesadas, foi convidado para trabalhar nas Usinas Flexas e Aricá, nelas ganhou algum dinheiro e veio para Cuiabá estabelecer-se por conta própria. DC ILUSTRADO - E os passos seguintes D. Gilda? D. GILDA Em 1930 trouxe a primeira agencia Fiat, sediando-a na Av. 15 de Novembro esquina da Senador Metelo. Depois instalou a primeira solda elétrica de Cuiabá. Papai possuía: serralheria, fundição, construía barcos, chatas, sem prejuízo dos consertos de automóveis e da venda de peças automotivas de várias marcas. DC ILUSTRADO As oficinas de seu pai fabricavam lanchas? D. GILDA- Construía barcos como a Filosofina, do Boabaid, charretes, fazia fundição, tinha tornos de várias bitolas, etc. DC ILUSTRADO Ele teve participação na energia elétrica de Cuiabá? D. GILDA Teve e grande. A primeira tubulação da turbina da primeira hidroelétrica do rio da Casca foi fundida nas oficinas do meu pai. DC ILUSTRADO Ele representou apenas a Fiat? D. GILDA Não, em seguida à Fiat, papai obteve as representações dos automóveis Mercedes Benz e Studebaker. Nessa época associou-se, ainda, ao seu cunhado Mário Fava e montou, em sociedade, um posto de gasolina na Praça Caetano de Albuquerque, no centro de Cuiabá. DC ILUSTRADO E a vida social do casal Ermete e D. Maria? D. GILDA Foi intensa. Papai passou a integrar a alta sociedade de Cuiabá e foi um dos fundadores do Rotary Clube de Cuiabá fazendo parte de várias diretorias. Exerceu, também, durante anos, o posto de Cônsul honorário da Itália em Mato Grosso. DC ILUSTRADO Quantos filhos teve o casal Ermete e D. Maria? D. GILDA Papai e mamãe tiveram três filhos, todos nascidos na Itália. Oscar, Tertuliana e eu. Os meus irmãos são falecidos e só fiquei eu na descendência. Casei-me com José Rabelo Leite e tivemos dois filhos: José Ermete e Carlina, os grandes tesouros da minha vida. DC ILUSTRADO - Quando ocorreram os falecimentos de seus pais? D. GILDA Papai morreu em 1959 e mamãe em 1955. DC ILUSTRADO Fale-nos de Rabelo Leite. D. GILDA - O meu saudoso marido José Rabelo Leite era um homem que cultivava sobretudo a honestidade. Tudo tinha que ser bem feito e dentro dos limites da dignidade. Amava Cuiabá sobre todas as coisas e o seu currículo foi enriquecido com a escolha dele para ser o presidente da Comissão Organizadora dos Festejos dos Duzentos e Cinquenta Anos de Cuiabá, em 1969. Nossa casa ficou de pernas para o ar. Tudo girava em torno dos projetos relativos às comemorações dos nossos 250 anos. Foram gravados discos, programadas inaugurações, edições de obras, danças regionais, músicas do folclore, desfiles, etc. Acho que os festejos alusivos aos nossos 250 anos imortalizaram o nome de José na história de nossa terra. Ele e eu não descansamos um minuto sequer para que tudo desse certo. E, graças a Deus, as festividades estenderam-se por todo o ano e ficaram registradas nas páginas da nossa história. DC ILUSTRADO A sra. se considera italiana? D. GILDA Aprendi a falar aqui, mas nasci na Itália. Meu coração é da Bolonha e de Cuiabá. Mas minha vida sempre foi aqui. DC ILUSTRADO Cite-nos algumas amigas D. GILDA - Temo ser traída pela memória. Mas, vá lá: Iris Capilé de Oliveira, que é minha comadre duas vezes, Nini Constantino, Elza Laurindo, Olga Candia, Nely Seror, Iara Lotufo, Maria Zaramella, Tetê Eubanck, Lais Granja Vieira, Jura Spinelli Palma, Amida Spinelli, Lourdes Gattass, Adiles Moreira e por ai vai. DC ILUSTRADO Qual era a maior distração de antigamente? D. GILDA - Era andar de bicicleta. Papai vendia e consertava bicicletas e era uma delícia vir pedalando do porto para a cidade. DC ILUSTRADO E os clubes sociais? D. GILDA Festávamos no Feminino e no Dom Bosco. Saí com o Coronel Caracíolo e com o Antônio Bastos, com Livro de Ouro, pedindo ajuda para a construção da sede própria do Clube Dom Bosco. E conseguimos a obra, com muito esforço. DC ILUSTRADO Alguma homenagem? D. GILDA Olha, Evaldo, quando a Maria Aparecida Pedrossian estava grávida do filho Pedrinho, ela me pediu para representá-la na recepção oferecida ao presidente Castelo Branco. Cumpri e a missão e, modéstia à parte, acho que não fiz feio, pois a Aparecida gostou do meu desempenho. DC ILUSTRADO Conte-nos dos concursos de misses. D. GILDA- O José Rabelo Leite presidia a Comissão Julgadora do Concurso Miss Cuiabá e eu do Miss Mato Grosso. Mas nunca fizemos nenhum acordo tendente a prejudicar as candidatas. No quesito honestidade, éramos inflexíveis. Ganhava quem merecia. DC ILUSTRADO Consta que as massas que a sra. faz despertava apetites dos mais finos gostos. D. GILDA De fato, ainda hoje faço o meu macarrão e não sobra nada. O saudoso senador Filinto Müller, possivelmente para me agradar, dizia que gostava muito de comer lá em casa porque a minha massa era a melhor do mundo. Isso massageia o nosso ego, não é verdade? E olha, tem gente que acredita.... DC ILUSTRADO Cuiabá sempre foi uma cidade hospitaleira, acolhedora, sem preconceitos de qualquer espécie. Mas os reveillons, comenta-se, eram fechadíssimos. Isso é verdade? D. GILDA Mais ou menos. Acontece que fazíamos os reveillons com o maior requinte. Toda a comida vinha de fora do Estado e as bebidas eram estrangeiras. Supunha-se que, fazendo cotas entre diversas pessoas e deixando que todos livremente participassem dos acepipes, de repente todo mundo estaria mandando e a festa perderia o rumo. Mas hoje tudo mudou... A abertura foi gradual e, depois, total. DC ILUSTRADO A sra. gosta mais da Cuiabá de hoje ou de antigamente? D. GILDA Confesso que gosto mais da Cuiabá de antigamente. Só para ficar num exemplo: hoje eu leio as colunas sociais e não conheço ninguém. DC ILUSTRADO E os filhos... D. GILDA São o meu tesouro. Não tenho riqueza que suplante José Ermete e Carlina. Só que, antigamente, a Carlina era a filha da Gilda e hoje eu sou a mãe de Carlina. Ainda bem que tenho orgulho dos meus filhos. DC ILUSTRADO Quem foi o melhor governador de Mato Grosso? D. GILDA Foi o Frederico Campos. Ele teve muito talento para enfrentar as dificuldades do Estado dividido. Quando Mato Grosso era um só, o maior governador foi Pedro Pedrossian. DC ILUSTRADO A sra. é católica? D. GILDA Sou católica fervorosa, dessas de rezar e tirar o terço diariamente. Acompanho pela TV as missas na Rede Vida, pelo canal 20, da SKY. DC ILUSTRADO Só para terminar: e a saúde? D. GILDA Vai bem. Apenas convivo com uma artrose no joelho que combato com medicamentos, hidroginástica e acupuntura. No mais, sou feliz nos meus 81 anos de vida. CONCLUSÃO D. Gilda Ricci Rabelo Leite, filha de Ermete e D. Maria a cujo casal muito devemos pelos relevantes empreendimentos que tocaram na nossa cidade é mãe de José Ermete e Carlina, foi casada com José Rabelo Leite e formaram um casal à frente de seu tempo. Cidadãos do mundo, tudo o que viam de novo e de bonito importavam para Cuiabá que era, seja reconhecido, o xodó de suas vidas. Hoje D. Gilda vive entre o Rio de Janeiro e Cuiabá curtindo a vida com a alegria contagiante que os seus 81 anos de idade não conseguiu esconder. Sempre foi guerreira. Já deu aulas de catecismo e de etiqueta, já ajudou blocos de carnaval como o Coração da Mocidade do Zé Maria, e o Sempre Vivinha do Nhozinho. Festeira de primeira hora, está feliz, lúcida, contando histórias a todos que a procuram. Dribla muito bem as doenças comuns da idade e só não consegue esconder as saudades da Cuiabá de antigamente. Velhos tempos que não voltam mais!.