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ILUSTRADO
Terça-feira, 28 de Junho de 2016, 18h:43

DISCO

À sombra dos gigantes

Ícones da música desde os anos 1960, Eric Clapton e Bob Dylan bebem em fontes do passado em seus novos discos, buscando outras abordagens para clássicos do blues e canções do repertório de Frank Sinatra

Em sua errática carreira solo, Eric Clapton sempre acerta quando se volta às origens ou reverencia os mestres. Neste milênio, o inglês que já foi chamado de deus da guitarra alternou-se entre discos de carreira competentes, mas previsíveis, caso do recente Old Sock (2013), e trabalhos não menos do que antológicos – como a colaboração com B. B. King em Riding with the King (2000), a reunião do grupo Cream, a turnê com Steve Winwood (ex-parceiro de Blind Faith) e os álbuns em homenagem a Robert Johnson e J. J. Cale. I Still Do, recém-lançado 23º disco de estúdio do cantor e guitarrista de 71 anos, faz parte desse segundo time de obras: Clapton está em sua melhor forma debruçando-se sobre aquele blues a meio caminho entre as rústicas origens no pantanoso sul norte-americano e a cristalização na Chicago urbana. Boa parte do crédito pela sonoridade rascante e pulsante do CD é do produtor Glyn Johns, inglês que trabalhou com bandas como Rolling Stones e Eagles e produziu o ótimo Slow- hand (1977) – disco de Clapton com hits como Cocaine e Lay Down Sally. A faixa de abertura Alabama Woman Blues sintetiza a proposta de I Still Do: cover de um tema de Leroy Carr de 1930, a música é um blues rasgado em que o piano, o órgão e o acordeão fazem a cama semiacústica para a guitarra elétrica de Clapton, em um vigoroso encontro entre passado e presente. O casamento entre blues primitivo, acordeão no estilo zydeco e rhythm and blues eletrificado está presente também em Stones in My Passway, do gênio Robert Johnson, e Cypress Grove, de Skip James – transformada em blues arrastado e pesado. O guitarrista J. J. Cale, outro ídolo de Clapton, tem duas de suas canções revisitadas: Can’t Let You Do It e Somebody’s Knockin’. Já I Dreamed I Saw St. Augustine, de Bob Dylan, virou uma balada folk ao estilo The Band. Há espaço ainda para Clapton exercitar seu melhor lado baladeiro acompanhando-se ao violão na radiofônica I Will Be There e na canção de ninar Little Man, You’ve Had a Busy Day. Mas o sumo mesmo de I Still Do (“Eu Ainda Faço”) é a profissão de fé no blues, renovada por Clapton em Spiral: “Eu apenas estou tocando esta canção / Você não sabe o quanto significa ter esta música em mim”. BOB DYLAN Se Frank Sinatra ganhou o apelido de A Voz por seu poder de interpretação fora do comum, Bob Dylan tem fama contrária: está na potência vocal, exatamente, o seu calcanhar de Aquiles. Um dos maiores poetas da música, Dylan chegou a reclamar recentemente das críticas que recebe por não conseguir manter uma nota por muito tempo com sua voz e “soar como um sapo”, em suas próprias palavras. “Os críticos pegam pesado comigo desde o primeiro dia”, desabafou no ano passado, ao receber um prêmio no Grammy. Mas nada que tenha impedido Dylan de lançar seu segundo disco com versões de Sinatra. Fallen Angels é o sucessor natural de Shadows in the Night, disco de 2015 e primeira incursão de Dylan nos temas que ficaram famosos pela voz histórica de Sinatra. E a ousadia volta a dar resultado: nas 12 faixas do novo álbum, o intérprete empresta sua personalidade e impõe características particulares a composições ainda mais ligadas a Blue Eyes, como All the Way e Young at Heart. Em 37 minutos, o cantor de 75 anos monta um quadro de melancolia e decadência autoirônica que é mantido com leveza e maestria por sua voz elegante. Com o estofo de uma banda talentosa e discreta, quem se destaca é o classudo Dylan crooner. O jornal britânico The Guardian destacou o “prazer de ouvir músicas clássicas interpretadas com classe”, e é aí que reside o mérito de Dylan em Fallen Angels: seja em rocks de protesto, em poesias românticas ou como crooner de canções de Sinatra, o músico sabe como poucos dar vida a composições e levar o ouvinte a ambientes distintos – com consciência de seus limites e suas habilidades. E é por isso que a voz de Dylan nunca foi um defeito, mas uma das ferramentas que ele soube utilizar com maior destreza. Claro, é fácil desperdiçar o valor de Fallen Angels ao acreditar que o disco é mais uma bola de segurança de Dylan. Um segundo disco de versões, ainda mais simples que o anterior, sem arroubos de criatividade: nada mais comum. Mas é Dylan, um dos grandes narradores da cultura norte-americana, debruçando-se sobre a obra de um dos maiores intérpretes da música daquele país – e um diálogo tão interessante entre duas visões tão díspares não deve ser tratado como algo descartável.

Edição EDIÇÃO 16967




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