ILUSTRADO
Sábado, 05 de Dezembro de 2009, 15h:42
A
A
CONTO
A ponto de bala
Odair de Morais*
Especial para o Diário de Cuiabá
CORRER NA CHUVA lhe dava uma sensação muito boa. Os grossos pingos explodiam contra o asfalto molhado como se fossem tiros do exército inimigo. Ele era o alvo. Chapinhando nas poças de lama, o suor saltava-lhe dos poros. Escorria pelo seu corpo e empapava-lhe os cabelos crescidos. É assim que ele se vê: um soldado no meio do charco. Servir o exército durante o Regime fez com que ele acreditasse ter encontrado um sentido real para a sua vida arrastada sem nenhum propósito claro até os dezoito anos de idade. Contudo, segundo seus relatos, ao chegar ao tempo máximo de serviços prestados, obrigaram-no a se aposentar. Só então percebera que uma nova etapa em sua vida começara. Atirador de elite do exército, fazia agora suas exibições no campo de futebol do bairro. Alvejando pombos. Armado de um 38, provava ser capaz de interromper a trajetória de um voo. O lugar ficava distante das casas, numa clareira, no meio do matagal. Para se chegar até lá era preciso abrir o caminho à foice. Renato, entretanto, surgia saltando touceiras enormes. Vez por outra caía no atoleiro. Sempre de meiões verdes, calção do exército e tênis conga, comemorava como um possesso se conseguia fazer um gol. Isto é, quando conseguia fazer um gol, porque ele estava envelhecendo e já não o respeitavam mais. Moleques de onze, doze anos de idade o colocavam na roda, gritando Olé! E ele, como um bobo, suportando gozações em campo. Algumas vezes, partira para a agressão. Humilhado, pois dava o máximo de si... Se pudesse, correria até sangrar pelas narinas, seus pés se chocando contra o asfalto molhado. Cada vez mais depressa, em pouco tempo os gritos das crianças ficariam para trás. E desapareceriam. *Odair de Morais é contista e professor de língua portuguesa na rede pública de ensino e colabora com o Diário de Cuiabá