ILUSTRADO
Terça-feira, 11 de Agosto de 2015, 20h:38
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CINEMA
A fina arte da podreira
No Museu da Imagem e do Som, em Cuiabá, três noites dedicadas à produção audiovisual dita a mais provocante
BEATRIZ SATURNINO
Da Reportagem
Sabe aquele filme bem produzido, de bom gosto e cheio de bom senso que muito te agrada? Pois é... perdeu seu tempo, você não vai ver ele aqui. Está é uma das chamadas da Mostra Cine Caos - Cinema sobre sangue, morte e o fim do mundo, que exibirá 13 vídeos entre curtas, médias e longas-metragens nestes dias 12, 13, 19 e 26 de agosto no Museu da Imagem e do Som de Cuiabá Lázaro Papazian (Misc), a partir das 19h30. A entrada é gratuita. O projeto tem a curadoria de Eliete Borges, Thiago Costa, Wuldson Marcelo, Ariadne Marinho e Yuri Kopcak, pelo Cine Inca (do Instituto Cultural América), cuja intenção é promover o movimento underground feito em Cuiabá, que acontece principalmente pela música, e que agora entra em cena com o Cinema. A Mostra revela o quanto um cinema alternativo, nem sempre contemplado pelos festivais e que passa longe dos circuitos de exibição comercial, esconde pérolas, verdadeiras preciosidades da crítica social, da irreverência ou da demência. A proposta é trazer vídeos de curtas e médias metragens sem o senso estético do cinema convencional, sem a preocupação dessa fotografia ensinada, deste belo estonteante, arrebatador, para apreciação. Tanto que a gente tinha feito uma vinheta que ficou um pouco agressiva, mas desistimos dela. Era para tirar onda: Venha assistir a pior trasheira nacional, tomar cerveja e falar merda. Censura: Menores de 18 e gente fresca, sorri e diz Eliete Borges, que acrescenta que é um convite mal educado, totalmente politicamente incorreto. O Cine Caos é uma proposta de trazer o trash nacional e regional para a cena cuiabana. Tem umas produções como Lixo Humano, com roteiro de Jorge Castro, que assina Jorge lixo Castro, e a direção de Rafael Monteiro, que também assina o codinome lixo, frisado em letra minúscula. O Jorge também dirige o Umbilicaos com a produtora Eutanásia Crew, que será exibido no último dia, junto com o filme inédito na cena nacional da trasheira intitulado Caos, do Gurcius Gewdner. Os nomes dos filmes são bem sugestivos a proposta do projeto, temática para o mês de agosto, também conhecido como mês do cachorro louco. Na abertura serão exibidos os curtas Filme Político e Raiva, de Petter Baiestorff. Na quinta-feira (13) tem os filmes nacionais Feto-morto, de Fernando Rick e Almoço na relva, de Gurcius Gewdner, e os regionais 7 palmos, de Maurício Falchetti e Lixo Humano. Ou seja, o Cine Caos é um desafio na contemporaneidade, pois traz muita morte, sangue e o que há de pior ou melhor na cena underground do audiovisual. Já que a tecnologia arrebata a impressão de falsidade e a falta de técnica chega a ser considerado um erro imperdoável na indústria do Cinema. São obras como a produção brasileira Feto Morto (2003), de Fernando Rick no qual um garoto nasce com um feto colocado em sua cabeça , resultado de uma mistura de sexploitation, gore e comédia. Também Monstro Legume do Espaço (2007), de Peter Baiestorff, que recorre à ficção científica, ao horror e a elementos do western para contar a saga de um alienígena enfrentando diferentes preconceitos. Entre outros títulos, as produções podem ser consideradas grotescas com a despreocupação à relevância dos cânones cinematográficos, até mesmo realizados propositadamente nestes moldes, com audácia e prazer pelo bizarro. Quando se fala em Cinema é imprescindível falar que ele nasceu sob a égide da melhor maneira de conceber imagens, no limiar da fuga de um mero registro fotográfico e da teatralidade. Ao longo dos séculos, adjetivos como belo, bonito, perfeito, deslumbrante, entre outros ratificam a ideia de que o apuro visual e a excelência técnica conferiam a uma produção artística seu valor, ainda que se pudessem contestar as qualidades referentes ao conteúdo e seus possíveis desdobramentos. Por isso, um filme como Freaks (1932), de Tod Browning, diretor do aclamado Drácula, de 1931, com o antológico Bela Lugosi, gerou polêmica e ainda hoje choca certa parte do público afeito às produções cleans e que não fogem do modelo de beleza hollywoodiano. Freaks traz atrações de circo como protagonistas, ou seja, pessoas com algum tipo de deficiência ou que apresentam características tidas como hediondas aos olhos mais pueris e devotados aos padrões de bom gosto. Ele é atualmente um filme maldito e cult. Porém, Freaks é uma produção de um grande estúdio, a Metro Goldwin Mayer (MGM Studios). Logo havia uma preocupação estética quanto a sua feitura, além de recursos para sua finalização. Os anos seguem, e a intenção de contar estórias bizarras invade o Cinema. A não rendição à tecnologia ou a falta de acesso a ela, faz surgir os chamados filmes trashs, cuja estética usa a seu favor os recursos escassos de produção e estórias nas quais o real e a beleza são termos dispensáveis. Portanto, gente que gosta de tudo redondo, gente clean, adoradores da técnica passem longe. Ou venham descobrir a fina arte da podreira, convida a curadoria, em outro chamado do projeto para o Cine Caos. Vale lembrar que a sala do Cinema abre às 19h30 e as projeções começam às 20h. Nesta quarta-feira (12) conta com a recepção da discotecagem de Theo Charbel e Amanda Polveiro. No dia 13 de agosto é o Camerata Jazz quem se apresenta antes da sessão das 19h às 20h, durante, nos intervalos e ao final.