ILUSTRADO
Sábado, 20 de Março de 2010, 12h:59
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CDs
A canção brasileira e as experiências teatrais
Thiago Pethit e Karina Buhr, artistas polivalentes, usam o talento para extrapolar artes
Lauro Lisboa Garcia
Agência Estado
A canção brasileira tem em seu histórico grandes figuras que incorporaram as experiências com o teatro em seu trabalho musical, como é o caso de Ney Matogrosso, Elba Ramalho e Maria Bethânia. Seus shows são grandes montagens, com carga dramática e vistosos aparatos cênicos. Bethânia aspirava a ser atriz desde criança e, ao longo de sua carreira de cantora, vem trabalhando com os melhores diretores teatrais. A diferença é que Thiago Pethit e Karina Buhr não são só intérpretes, mas compositores. E as influências das artes cênicas se refletem na forma como compõem suas canções. Thiago foi buscar inspiração em Bertolt Brecht. E Kurt Weill, parceiro do dramaturgo alemão, é sem dúvida uma de suas referências, como Tom Waits e Leonard Cohen. "No fundo são todos músicos que têm esse aspecto do vaudeville. Cohen escreve umas coisas muito pessoais, que é também um pouco por onde eu caminho " Na cidade imaginária criada por Thiago em Berlim, Texas, a lousa que serve de capa do CD e de cenário do show sintetiza a ideia do "preto no branco", daí as canções confessionais. "Minhas letras são superpessoais. Tem uma que não é, Voix de Ville, em francês, e é sempre mais difícil de eu fazer", diz o autor. Daí a transparência não só de intenções, mas de resultados. Ao contrário de certos imitadores de Waits, como Renato Godá, Thiago evita o pastiche. O xis da questão não é ter boas fontes, mas o que fazer com elas. "Quando gravei o disco tinha essa questão das referências meio antigas, essa Berlim, Texas como algo dos anos 20 ou dos anos 60. Ao mesmo tempo sabia que isso só realmente seria interessante pelo fato de eu como pessoa sou muito antigo (não moralmente) e muito contemporâneo." É notável a evolução do trabalho registrado no EP de 2008 para o álbum. Uma das canções, aliás, faz parte dos dois trabalhos. É White Hat, que ganhou arranjo bem mais interessante. Bastou acrescentar detalhes de um mínimo de instrumentação e vocais mais trabalhados. Há quem venha comparando Thiago com Tiê, por uma certas semelhança na sonoridade, com uma pitada do que se convencionou chamar de pós-folk (Hélio Flanders, do Vanguart, aliás, participa de uma das melhores faixas, Forasteiro), e um mínimo de instrumentação, acústica, baseada em piano, com acréscimo de cello, bateria, violão e percussão. "Tiê foi quem abriu a minha caixinha de Pandora. Porque eu trabalhava com teatro e estava começando a ficar descontente com o fazer teatral, porque eu descobri que gostava muito mais da teatralidade, que é o que Brecht tinha, do que do teatro em si." Dono de bela voz, autor e intérprete inteligente, observador atento, Thiago fez um álbum charmoso, denso e caloroso ao mesmo tempo. Tem algo de Beirut também, mas imprime sua personalidade em cada detalhe, e em qualquer língua. As mentiras sinceras de Karina Buhr Tão urbano quanto Berlim, Texas é o ótimo álbum de estreia de Karina Buhr. Só que, enquanto Thiago lida diretamente com a verdade pessoal, Karina brinca com a mentira. Eu Menti pra Você é repleto de personagens, soluções sonoras impactantes, letras irônicas, pontos de vista inusitados sobre o mais comum e ímpeto criativo que vem desde antes da experiência com o inquieto antropófago Zé Celso Martinez Correa, no Teatro Oficina. "Viajo muito nessa história, o disco tem um roteiro. E por mais que eu fale muita coisa na primeira pessoa, claro que tem um pouco disso, mas não são necessariamente histórias que aconteceram comigo. Não tenho necessidade nenhuma de repetir a verdade. Sempre tem uma distorcida", diz. Tendo incorporado a cultura "de fazer tudo junto" que vivenciou no Nordeste, como teatro de mamulengo e cavalo marinho ("que é teatro também"), Karina critica um certo ranço que ainda há na expectativa do público em relação à música produzida em Pernambuco. "Alguns dizem que antes eu fazia música regional e agora sou mais urbana. Não quero ser enquadrada." Ela iniciou as atividades musicais nos maracatus Piaba de Ouro e Estrela Brilhante, tocou na Eddie e depois formou o Comadre Fulozinha, com outras mulheres. Seu jeito de fazer música com a banda é bem parecido com o trabalho solo. "Só que na hora de botar em prática muda muito. A primeira ideia era que a sonoridade do disco tivesse só bateria, teclado e baixo, sem guitarra. Depois veio Catatau, gosto de uma coisa que ele faz que é uma antiguitarra. A guitarra dele veio como um luxo." Além de Catatau, Karina reuniu alguns dos músicos mais bacanas em evidência no cenário contemporâneo paulistano, como Marcelo Jeneci (sanfona e pianos), Guizado (trompete) e Edgar Scandurra (guitarra), que fazem participações no CD. A superbanda tem também Bruno Buarque (bateria), Mau (baixo), Otávio Ortega e Dustan Gallas (teclados). Há canções novas e outras antigas, como Solo de Água Fervente e O Pé. Umas que nasceram com cara de hit, como Eu Menti pra Você e Plástico Bolha. Rock, funk, ciranda e eletrônica, reggae, ska, carnaval e assuntos de guerra se entrelaçam numa empolgante massa sonora. Se está "tudo padronizado", como canta em Mira Ira, Karina é a contradição do óbvio. Pra lá de moderna.