ILUSTRADO
Terça-feira, 19 de Agosto de 2014, 21h:05
A
A
A aridez de todo desencontro
Rodivaldo Ribeiro
Da Reportagem
Olá, amiguinhos. Como nosso bravo Juarez resolveu escrever sobre Zona de Conflito, eu já pretendia há algum tempo falar de Omar e a matança na Palestina não para, resolvi juntar os textos numa mesma retranca e recomendar os dois filmes para uma visão um pouco mais, digamos, complexa dos espinhos nos quais todos andam se rasgando por lá. Após ter sido nomeado para o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro por Paradise Now, o diretor palestino Hany Abu-Assad consegue repetir a dose com Omar, outra história sobre o cotidiano de jovens palestinos árabes ou judeus obrigados à separação devido ao conflito árabe-israelense. Personagem-título, Omar trabalha como padeiro do lado mais pobre da fronteira, mas inventou de arrumar uma namorada, Nadia, do lado de lá. Resultado: encontros às escuras, temperados com paranoia, amor proibido e o sonho idílico de um dia deixar tudo pra trás para, juntos enfim, poderem viver o idílio negado numa mais que idealizada França. Acontece que gente oprimida tende a ser idealista e Omar não foge à regra, como se não bastassem todos os problemas (trabalhar duro, ser pobre e namorar gente do lado inimigo), ele ainda entra numas de ser ativista político radicalmente anti-Israel. Como o diabo sempre traz o pão quente já passado a manteiga, ele encontra eco às suas ambições no irmão de Nadia, Tarek. Completa o time do malogro o amigo comum dos três, Amjad. Como não se come esse tipo de pão e manteiga sem a companhia do padeiro e suas ideias, o trio resolve planejar ações guerrilheiras. E aí entra a excelente mão do ainda subestimado diretor Hany Abu-Assad (quem mandou não ser americano ou europeu, meu filho?): mestre do cinema de silêncios e sutilezas, mas contador de histórias de mão cheia, o aparentemente lento ritmo segue em um crescendo de tensão real. Só para aprisionar o espectador no mundo sem fim de impotência, raiva e rancor cotidianos aos quais o absurdo da velha rixa obriga todos os palestinos (árabes ou israelenses). Ninguém perdoa, ninguém deixa pra lá, todo mundo reage e responde com violência, seja ela simbólica (como quando obrigam Omar a apresentar documentos só para humilhá-lo sem parar, obrigando-o ao cúmulo de ficar imitando um saci) ou real (Omar, Tarek e Amijad vão à forra dias depois, atirando num soldado israelense enquanto esse nada fazia além de estar em pé, parado em seu posto). Como todo mundo já sabe como Israel reage a baixas do seu lado, o serviço secreto israelense captura Omar mais rápido do que a Alemanha enfia cinco gols no Brasil. Daí em diante, qualquer criança já sabe o roteiro: prisão, interrogatórios, tortura. Devido a uma decisão que se eu contasse estragaria o filme, Omar vai conhecer sozinho uma realidade que se torna, em si mesma, uma grande metáfora do que vem a ser a vida naquele pedaço do mundo nos dias que correm. Nada existe mais ali além de medo, desconfiança, destruição, vidas partidas, incapacidade de convivência e, acima de tudo, um isolamento infernal do resto do mundo. Não há mais viagem a Paris, só a aridez sem fim (real e metafórica) contida em todo desencontro. Nota dez.