Editoriais
Sábado, 24 de Outubro de 2009, 00h:38
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Rodovia do Índio
Chapadão do Parecis, 1907. A Expedição Rondon avança pelo cerrado estendendo as linhas telegráficas do Rio de Janeiro para Manaus e chega às imediações de um salto de rara beleza, com 96 metros, no rio Papagaio. Enquanto admirava a queda dágua, o grande militar e sertanista notou que um pequeno gavião pousou no galho de uma árvore à margem do rio. Cândido Mariano da Silva Rondon fez mira na ave, mas um Paresi que integrava seu grupamento lhe pediu para não matá-lo, porque se tratava de um Utiariti, ave sagrada para seu povo, e cujo nome na linguagem dele significava Padre. O pedido do índio não fazia sentido, porque a arma do então coronel do Exército não disparava contra aves e bichos. Ele apenas simulara que atiraria para testar a reação de seus subordinados. Sem querer, o Paresi deu nome ao imponente salto, que desde então, por ordem de Rondon, passou a figurar nos mapas com a denominação de Salto Utiariti. As incursões de Rondon pelo Chapadão do Parecis criaram fortes vínculos entre índios e sociedade envolvente e até hoje é excelente clima de cordialidade e interatividade entre os que vivem dentro e fora das reservas indígenas daquela região, com cada grupo mantendo suas tradições, crenças e costumes. O gavião Utiariti continua sagrado para os Paresi. O Salto permanece tão belo e intocável como Rondon o viu. Os índios são os mesmos, porém evoluíram, abandonaram as guerras tribais, reconheceram a medicina alopática, incorporaram barcos a motor e veículos ao seu cotidiano, comunicam entre si e com outros indivíduos pelo celular, assistem televisão, frequentam igrejas cristãs e torcem por grandes times. O Chapadão é pontilhado por grandes reservas indígenas, dentre elas Utiariti, dos Paresi, nos municípios de Sapezal e Campo Novo do Parecis, com 408.187,13 hectares e 429 indivíduos. Hoje, a terra onde Rondon conheceu o Salto e a ave que lhe empresta o nome está em festa. Os Paresi comemoram o sonho compartilhado com seus vizinhos de Sapezal e Campo Novo do Parecis há mais de duas décadas: a ligação asfáltica da MT-235 entre as duas cidades, cruzando sua reserva, obra que recebeu o nome de Rodovia do Índio. Paresi e os moradores fora da reserva Utiariti reconhecem a importância da pavimentação tanto para a região quanto para a logística de transporte e integração do Corredor Noroeste. Os primeiros serão beneficiados com a cobrança do pedágio para a utilização da Rodovia do Índio. Os benefícios para os outros são incalculáveis A pavimentação é estratégica ao desenvolvimento de Mato Grosso, ratifica as boas relações entre os Paresi e seus vizinhos, e mostra a visão comum do desenvolvimento sustentável dos que vivem dentro e fora das aldeias. Rodovia do Índio nasceu da vontade coletiva e tornou-se possível graças ao seu executor, o governador Blairo Maggi, ao qual o Diário parabeniza por essa obra que orgulha o povo mato-grossense. O gavião Utiariti continua sagrado para os Paresi