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Editoriais
Segunda-feira, 10 de Janeiro de 2011, 21h:10

Índios do Araguaia

Ao menos seis crianças da etnia Xavante morreram nos primeiros dias deste ano em aldeias no município de Campinápolis, no Vale do Araguaia. Essas e outras mortes ditas naturais entre indíviduos de todas as faixas etárias daquele povo, tem origem no contato entre os moradores das reservas e a vizinhança envolvente. Campinápolis faz parte do grupo de municípios do Vale do Araguaia onde a presença Xavante é forte e muito próxima da sociedade dita civilizada. Nas cidades é comum a cena de índios embriagados frequentando bares em companhia de moradores locais, sobretudo de jovens com os quais dividem bancos de escolas e faculdades. Alguns acidentes rodoviários graves envolvendo índios do Vale do Araguaia foram registrados nos últimos anos e deixaram macabro saldo de mortos além de feridos em Nova Xavantina, Água Boa, Novo São Joaquim e outras localidades. Indivíduos de baixa resistência a doenças comuns aos vizinhos do outro lado das reservas, os Xavante embora de porte físico sempre avantajado, são muito vulneráveis e ficam permanentemente expostos em suas aldeias ao convívio com servidores da Funai, da Secretaria Nacional de Saúde Indígena (Sesai), ONG’s, missões religiosas e até mesmo a inescrupulosos compradores de madeira. A exposição é maior e mais grave ainda nas cidades. As reservas Xavante no Vale do Araguaia são grandes, mas não há território contíguo. Povo acostumado a andar pelas chamadas áreas de perambulação esses índios ficam em permanente vaivém entre as aldeias, o que os obriga a cruzar cidades e enfrentar o tráfego em rodovias, inclusive pavimentadas. A movimentação intensa os deixa em estado de irreversível transformação cultural, que cria preocupante situação híbrida no contexto social. Caçador por excelência, o Xavante foi condicionado a abrir mão do costume da caçada com fogo, com o qual cercava a presa até sua captura e abate. Povo de fortes guerreiros, essa etnia estimula a competição entre crianças para que somente os mais forte sobrevivam na luta pela alimentação. Esses costumes tribais cedem espaço ao uso indiscriminado do telefone celular, GPS, do volante de potentes camionetes, da arma de repetição, do consumo da bebida alcóolica, do uso das roupas dos vizinhos ditos civilizados e da mudança dos hábitos alimentares. Com isso ocorre a perda da identidade étnica e surgem gerações em descompasso com as tradições de seus antepassados. As crianças Xavante de Campinápolis oficialmente morrem vítimas da diarréia, da gripe, do sarampo e outras doenças. Mas, na prática essa mortalidade infantil tem suas causas no choque cultural entre um povo com costumes de tempos imemoriais e seus vizinhos do século XXI com o olhar no futuro. Algo sério, que não poderá ficar sujeito a decisões de grupos seletos, deve ser feito com urgência em nome dos povos indígenas, ainda que para tanto seja preciso rever costumes dentro e fora das aldeias. “Ocorre a perda da identidade étnica e surgem gerações em descompasso com as tradições de seus antepassados”

Edição EDIÇÃO 16967




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