O relatório da ONU sobre as medidas que as sociedades e os governos podem adotar para combater o aquecimento global provoca dois sentimentos inevitáveis: o de esperança e o de urgência. O documento do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas, divulgado sexta-feira em Bangcoc, afirma que a comunidade humana possui dinheiro e tecnologia suficientes para evitar a catástrofe ambiental, desde que estabeleça uma estratégia para fazê-lo, com os países poluidores assumindo suas responsabilidades não apenas para financiar esse esforço, mas especialmente para reduzir consistentemente as emissões de gases que provocam o efeito estufa. Depois das duas primeiras partes de um relatório em que o futuro do planeta era descrito em cores sombrias, e que foram divulgados em fevereiro e abril, agora surge uma terceira parte na forma de um documento propositivo, que afirma que o processo de degradação ambiental ainda pode ser detido e diz como. O mais alentador do relatório é que estabelece os números que o esforço mundial demandará para deter o processo de poluição do planeta que causa o chamado efeito estufa. Com investimentos de cerca de 3% do PIB mundial, essa tendência de degradação ambiental pode ser interrompida. Percentualmente parece um objetivo fácil, porque mais do que isso é gasto cada ano para se manterem as guerras e os programas de armas e segurança. Em números absolutos, no entanto, aqueles 3% se transformam numa montanha de US$ 1,47 trilhão, muito semelhante à que seria necessária para enfrentar as mazelas da pobreza e da desigualdade social no mundo. De qualquer maneira, o desafio que o relatório mundial propõe já não sofre daquele determinismo apocalíptico com que vinha sendo pintado. A comunidade humana tem em suas mãos a opção de acionar o mecanismo para interromper o aquecimento global. Basta que queira. Uma das tarefas emergenciais do mundo é evitar que o aquecimento seja maior que 2ºC até o fim do século e isso será possível, de acordo com o estudo, se até 2030 as emissões de gases forem reduzidas em 26 bilhões de toneladas. Para isso, será necessário conter a voracidade do homem, aumentar a eficiência energética e reduzir o consumo e ampliar o uso de combustíveis não-poluentes, entre outras. O pagamento desta conta e os objetivos imediatos de um processo de redução de emissão de gases - no mundo rico e nos países em desenvolvimento - já se transformaram nos temas polêmicos dos negociadores reunidos em Bangcoc para discutir o relatório. Um dos participantes do encontro da Tailândia apresentou um argumento irrefutável: mesmo representando um valor elevado, os bilhões de dólares necessários para preservar o planeta representam um custo baixo, se se levar em conta o tamanho do prejuízo climático que poderá ser evitado. Evitar o aquecimento acima de 2% até o fim do século é um dos objetivos