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Editoriais
Sexta-feira, 09 de Fevereiro de 2007, 19h:51

Do crime à barbárie

Mazela número 1 do país, a violência urbana brasileira acaba de ganhar um capítulo de barbárie com esse episódio do menino de seis anos que foi arrastado por ladrões de carro, no Rio de Janeiro. A crueldade dos delinqüentes, revoltante sob todos os aspectos, evidencia a urgência de uma reação em escala nacional. O país não pode se conformar com o atual estágio de degradação da segurança pública, como se a sanha criminosa fosse uma fatalidade. Não é. Outras nações já provaram que, com políticas públicas firmes e adequadas, a criminalidade pode ser contida. O suplício do garoto João Hélio Fernandes num subúrbio do Rio de Janeiro, depois que dois assaltantes não esperaram sequer a mãe retirar o filho do banco de trás antes de levarem o veículo, chocou até mesmo policiais experientes na quarta-feira à noite. E mobilizou a comunidade: várias pessoas tentaram interferir para que o carro parasse e, depois, colaboraram para a identificação dos criminosos. Em decorrência, ontem mesmo a polícia carioca prendeu suspeitos que confessaram participação no assalto. Sempre que uma criança é vítima da violência, o futuro de toda a sociedade que a abriga fica ferido de morte. Por isso, a infância merece proteção permanente. Há sempre uma sensação de fracasso quando essa rede de proteção não consegue impedir uma covardia, como ocorreu no caso do Rio, o que infelizmente começa a fazer parte da rotina nos lares e nas ruas do país. Visível não apenas no Rio, mas também na maioria das grandes metrópoles brasileiras, a vulnerabilidade crescente a que estão expostas as crianças precisa se transformar em pauta permanente da sociedade e do poder público. Obviamente, a questão é complexa e exige providências ousadas, ininterruptas e de impacto num horizonte longo. A proteção da infância deve começar antes mesmo de a criança ser concebida. Entre os pressupostos para uma infância saudável, estão planejamento responsável, núcleo familiar com um mínimo de estrutura psicológica e financeira e a consciência da importância dos cuidados com a saúde e com a escola, até que os meninos e meninas tenham maturidade física e emocional para decidirem por si mesmos. Não podemos continuar sendo um país dividido entre vítimas e algozes. Certamente, nem todas as pessoas crescidas num ambiente hostil chegarão ao ponto de cometer uma atrocidade como a registrada agora. A realidade e os fatos quantificados nas estatísticas, porém, confirmam a maior propensão de migrarem para a criminalidade os brasileiros egressos de famílias desestruturadas, que foram privados de amor e de atenções especiais e pouco freqüentaram a escola. O primeiro desafio, portanto, é preservar as crianças da violência. Mas esta tarefa, que é de todos, também inclui ações no sentido de impedir que tantos brasileiros continuem propensos a migrar para o crime. O Brasil não pode continuar sendo um país dividido: de um lado vítimas, de outro, algozes

Edição EDIÇÃO 16967




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