ECONOMIA
Sábado, 02 de Agosto de 2008, 14h:00
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Paixão e comércio formiguinha na fronteira
Casamento não faz parte dos planos de Luciana Tumicha, boliviana, e José Bispo da Silva, brasileiro que trocou o Maranhão por Mato Grosso. Para ambos basta dividir o mesmo teto, com companheirismo, respeito mútuo e sem perder a chama do olhar que em 1997, do lado de lá da fronteira, os incendiou para sempre numa explosão de paixão. O casal mora numa fazenda em Palmarito, município de Vila Bela da Santíssima Trindade, juntamente com os filhos Oziel, 10; Eliel, 8; Raniely, 6; e Franciele, 4. Oficialmente, a escadinha é brasileira. Na fronteira a regra do jogo ensina que nacionalidade é moeda de troca sem perder o amor pátrio. Ele é peão. Ela cuida da casa. São pobres. Nenhuma família de baixa renda abre mão do SUS porque na Bolívia a saúde pública somente atende crianças de até cinco anos, pré-natal, mãe que amamenta (Servicio Universal Materno-Infantil/Sumi) e adultos acima de 60. O restante da população fica ao deus-dará. Sábado, sim, sábado, não, José e Luciana enfrentam 50 km de estrada de chão até Vila Bela, para as compras da quinzena. Iguais a eles, moradores dos dois lados da fronteira fazem o mesmo percurso. Quando o casal necessita repor o modesto guarda-roupa ou adquirir eletroeletrônico, a rota é outra: San Ignacio Velasco, na Bolívia. Na região, é assim: o comércio formiguinha, que foge ao controle aduaneiro e não tem registro na balança comercial, movimenta a economia e reforça ainda mais os laços de união dos dois povos. A relação comercial informal se estende de Cáceres a Comodoro, passando por Porto Esperidião e Vila Bela. É impossível contê-la numa fronteira seca de 730 km, desmilitarizada, com simbólico policiamento, habitada nos dois dos lados por vizinhos que convivem em harmonia e por famílias integradas por brasileiros e bolivianos. Fronteira é região de oportunidades. Seria insensato impedir que bolivianos comprassem para consumo, açúcar, refrigerante, cimento, colchões, arroz empacotado, óleo de soja, lácteos, suco de uva, ovos de granja, portas e janelas de aço, esquadrias metálicas, tintas e outros produtos mato-grossenses. O mesmo se aplica aos brasileiros que vão ao país vizinho em busca de pneus, peças automotivas, eletroeletrônicos, relógios, utensílios domésticos, brinquedos, instrumentos musicais, ferramentas, cerveja Paceña, uísque escocês e do litro da gasolina e óleo diesel na bomba a R$ 1,23. Mesmo com a fronteira escancarada, o controle sanitário animal é rigoroso do lado brasileiro. Nas rotas rodoviárias fiscais do Instituto de Defesa Agropecuária (Indea) pulverizam os veículos oriundos do país vizinho com produtos específicos para evitar riscos de febre aftosa. Esse procedimento tem apoio do Ministério da Agricultura, que coordena um programa de cessão de fiscais de outros estados para atuação na área. Na terça-feira, 29 de julho, cumprindo normas internacionais, o Indea sacrificou 401 bovinos procedentes da Bolívia, que entraram irregularmente em Mato Grosso, tocados por comitiva de boiadeiros. Fiscais encontraram os animais na região de Palmarito. Esse foi o segundo abate sanitário na fronteira. O primeiro aconteceu no ano passado, quando foram sacrificadas 150 cabeças. (EG)