ECONOMIA
Segunda-feira, 06 de Abril de 2009, 21h:53
A
A
CRISE NA PECUÁRIA
Início do caos em MT
Pecuaristas se rebelam contra o atual contexto da atividade e bloqueiam acesso a uma planta em Vila Rica
EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Gado para abate não entra e câmara fria com carne bovina não sai. Essa é a situação em que se encontra o Frigorífico Quatro Marcos, em Vila Rica, na divisa com o Pará, desde domingo, quando credores bloquearam seu acesso. A obstrução prosseguiu ontem, e segundo o presidente do Sindicato Rural de Vila Rica, Ivan Augusto Pelissari, será por tempo indeterminado, até que a empresa pague cerca de R$ 12 milhões que deve a 135 pecuaristas da região. Cerca de duzentos fazendeiros iniciaram o protesto no último domingo. Segundo os organizadores do movimento, ontem pela manhã foi feito um contato com os diretores do frigorífico, mas não conseguiram fechar um acordo. O presidente do sindicato disse que vão continuar com as negociações. Quanto à suspensão do bloqueio, Ivan afirmou que ainda não há uma previsão de dia e hora para que isso aconteça. Assim que tivermos um parecer mais contundente, nós desmontaremos o bloqueio. A interdição recebeu ontem também, o apoio de empresários e comerciantes da cidade, que reforçaram com seus carros a interdição à planta frigorífica. O frigorífico Quatro Marcos em Vila Rica (1.260 quilômetros a nordeste de Cuiabá), tem capacidade de abate diário de 700 cabeças e não se pronunciou sobre o bloqueio. Por telefone, um funcionário que pediu a omissão de seu nome, disse que a empresa orientou suas filiais a não falarem com jornalistas, enquanto a recuperação judicial não for resgatada junto aos credores. O protesto foi a forma encontrada pelos credores para pressionar o Quatro Marcos e rever sua relação com os pecuaristas. Pelissari argumenta que o frigorífico entrou com pedido de recuperação judicial, mas que continuava abatendo até a semana passada, pagando à vista aos fornecedores. Essa situação no entendimento do sindicalista é contraditória, pois ele (o Grupo) tem reserva financeira para compra à vista, mas não tem dinheiro para honrar seus compromissos anteriores?. Ontem, o comércio de Vila Rica aderiu ao movimento e empresários reforçaram o bloqueio. Alguns caminhões com câmeras frias estão retidos no pátio e impossibilitados de seguir viagem. A economia local sofreu um baque, observa o prefeito Naftaly Calixto (PMDB). Calixto revela que nos três primeiros meses do ano a arrecadação do município sofreu redução de 20% no comparativo a igual período de 2008. O rebanho bovino de Vila Rica é de 642,32 mil cabeças e incluindo os municípios da vizinhança sobe para 2,89 milhões de animais. A pecuária é a principal base da economia da regional e sofre com o efeito dominó que fechou mais de uma dezena de frigoríficos e deixou rombos em Confresa, Canarana e Nova Xavantina, naquela região, que com o fechamento das unidades se encontram sem frigoríficos. TENSÃO - Policiais militares acompanham o protesto dos pecuaristas, e até ontem não houve incidente. Porém, a situação é tensa na cidade. Em 17 de março, o diretor de Vendas do Quatro Marcos, Anísio Vilela Neto, sofreu um atentado. Vilela Neto foi atingido por seis tiros à porta de sua casa. O executivo foi internado e posteriormente removido para outra cidade, mas não corre risco de morte. CRISE Na semana passada o frigorífico Independência, anunciou a continuidade do período de ajustes e confirmou o fim das atividades em mais três plantas no País, entre elas a unidade de abate e desossa de Nova Xavantina (645 quilômetros ao leste de Cuiabá), a de abate em Presidente Venceslau e o do centro de distribuição de Itupeva, ambas em São Paulo. Em Mato Grosso esta é a segunda filial da Companhia a encerrar as atividades. Uma semana antes havia sido decretada o fechamento de unidade em Confresa, a mais de 1,1 mil quilômetros ao nordeste de Cuiabá. Das cinco filiais da empresa no Estado, duas deixam de operar, Confresa e Nova Xavantina e as outras três têm confirmadas pela própria Companhia que haverá demissões no quadro funcional. De acordo com o presidente da Associação dos Criadores de Mato Grosso (Acrimat), Mário Candia, as demissões na indústria frigorífica estadual atinge cinco mil desligamentos. Das 38 plantas frigoríficas registradas no Serviço de Inspeção Federal (SIF) de Mato Grosso unidades que podem comercializar seus produtos para outros estados e países -, 13 estão em processo de recuperação judicial, sendo elas: seis plantas do Quatro Marcos, três do Independência, três plantas do Arantes e uma planta do Margem. Antes eram 15 em recuperação, agora passam a treze, já que duas do Independência tiveram o fechamento decretados. O atual contexto revela que mais de 35% da capacidade de abate está comprometida. (Veja mais na página C2. Colaborou Marianna Peres)