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CIDADES
Terça-feira, 31 de Março de 2009, 21h:29

DESAPARECIDOS NO JURUENA

Uma epopéia no meio da floresta

RENÊ DIÓZ
Especial para o Diário
Três homens, entre eles o ex-prefeito de Cotriguaçu Gilmar Prange, ficaram embrenhados na mata amazônica ao norte do Estado, perdidos desde a última terça-feira, quando se dirigiram a uma pescaria no rio Juruena. Um pequeno vacilo fez com que o barco afundasse, mas o grupo alcançou a margem a nado. O drama só teve fim na manhã desta segunda-feira, quando foi avistada uma fazenda após 6 noites e 7 dias de caminhada em meio à mata fechada. A aventura contou com perigos e privações de uma área de floresta desabitada pelo homem, úmida e habitada por animais ferozes. Prange conta que chegou a comer gafanhotos para não passar fome, bem como ovos de passarinho, além de folhas novas de babaçu (uma espécie de palmeira, o alimento mais frequente), castanhas, cocos e frutas. “Isso servia mais ou menos pra forrar o estômago, mas não dava nem uma vitamina para o corpo”. Em alguns dias, para piorar a situação, simplesmente não havia comida. Para completar o drama, diariamente o grupo se deparava com bandos de porcos-do-mato, animais ferozes que só eram espantados pelo grito treinado, na medida certa, de um dos colegas de Prange, Paulo Bolson, fazendeiro experiente. “Tem que ser certinho, porque, às vezes, um cachorro late e os bichos vêm todos pra cima. Tem que saber fazer. Mesmo assim, os porcos, uns bandos numerosos, ainda cercavam a gente e ficavam estalando os dentes, como eles costumam fazer”, relata Prange. A ameaça desses animais foi mais assustadora numa determinada noite, conforme o relato da aventura repleta de perigos. O grupo estava dormindo em mais uma cabana improvisada com folhas de babaçu, quando foi notada a presença de um bando de porcos-do-mato. Eles apenas sentiam que estavam sendo cercados, mas a escuridão não permitia planejar qualquer tipo de fuga ao olfato apurado dos bichos à espreita. “Era noite sem lua e não se enxergava nem um palmo à frente naquela mata fechada. Pelo menos, depois de um tempo, eles simplesmente resolveram sair”, diz Prange. De acordo com Prange, ninguém sequer começou a pescar direito antes do drama começar. Eles foram para o mesmo ponto de sempre no rio Juruena, mas vacilaram ao colocar o barco contra a forte correnteza. O resultado: A embarcação se encheu de água e afundou. A sorte de todos foram os coletes, que os permitiram seguir para a margem do rio. A estratégia passou a ser a caminhada na direção sul ao longo do rio Juruena. Os três sabiam que o leito faz um percurso norte-sul e o nascimento do sol bastaria para que soubessem como se afastar da mata fechada. Eles calcularam uma caminhada de até 4 dias até encontrar uma fazenda, mas a chuva diária os impedia de andar conforme o planejado. Prange diz que, dos três amigos de pescaria (todos com pouco menos de 50 anos de idade), ele era o mais debilitado após 7 dias. Na segunda-feira, suportando as assaduras nas pernas feitas pelo jeans molhado, o grupo finalmente encontrou uma fazenda, de onde contataram a família por telefone. Os bombeiros enviaram até avião para localizá-los, mas as buscas se concentraram na região errada da floresta, diz Prange.

Edição EDIÇÃO 16967




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