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Cuiabá MT, Segunda-feira, 15 de Junho de 2026

CIDADES
Sábado, 16 de Janeiro de 2010, 17h:17

LÍDER EM MORTES

Realidade perturbadora assola Pedra 90

Na narrativa da comunidade local, cansada da sequência de crimes, bairro vive a presença ostensiva de criminosos e sob a ‘lei do silêncio’

RENÊ DIÓZ
Da Reportagem
A placa de boas-vindas na entrada do Pedra 90 soa irônica a quem, de antemão, já ouviu falar dos fatos por trás dela: o bairro é anunciado como lugar de paz, saúde e prosperidade, mas, pelo menos no primeiro item, tem números suficientes para revelar-se uma aterradora frustração. Somente em 2009, a região foi cenário de 14 assassinatos, estatística divulgada na semana passada que, mais uma vez, colocou o Pedra 90 na primeira posição do ranking de bairros com mais homicídios investigados pela Polícia Civil em Cuiabá. Os dados carregam uma realidade já perturbadora quando expressada pelas estatísticas oficiais, mas que assume contornos ainda mais graves quando testemunhada pelos próprios moradores – principalmente por meio de relatos pessoais trágicos, mas, também, por meio do próprio silêncio, imposto ali como lei e só quebrado pelo anonimato. Foi por essas duas vias que alguns moradores manifestaram à reportagem tanto o desejo de abandonar a região quanto o temor de perseguição gerado pela presença ostensiva dos criminosos e pela possibilidade de represálias que um abrir-de-boca pode causar. Dentre os poucos que se prestam a isso sem pedir anonimato, o aposentado João Luiz de Souza, 69 anos, chama a atenção com uma tragédia recente, em novembro passado. Seu filho Jairo foi executado numa rua próxima de casa. Tinha 26 anos, um acima da faixa etária mais suscetível a assassinatos (ver matéria). Desempregado, Jairo era usuário de drogas e andava praticando roubos e furtos para sustentar o vício. Provavelmente, um acerto de contas de traficantes lhe levou ao fim. “Aí eu desgostei do lugar. A criminalidade aqui está demais. Quero ir para um sítio. A cidade hoje está muito violenta e eu acho que, a cada ano, vai ser pior. Há 40 anos, o pessoal tinha o maior medo de matar. Agora, até criança está matando”, lamenta o aposentado. Impactado pelo luto e ávido por sossego, Souza quer vender sua casa após 17 anos no bairro. Pede módicos R$ 40 mil por um imóvel bem cuidado e amplo, com pé-direito alto, três quartos, garagem e área nos fundos; mas pelo qual, até hoje, só um potencial comprador se disse interessado – sem voltar para negociar. Talvez pelo endereço estar a apenas 100 metros da praça do bairro (ver matéria), mas Souza não sabe dizer. Caseiro, ele não é de se expor muito na rua e fala com a tranquilidade de quem não teme represálias, um comportamento incomum entre os que se movimentam pelo bairro. Para eles, o assunto da violência local inspira apenas duas coisas: silêncio ou anonimato. PARANÓIA - “Pedra 90, só vem quem aguenta”, brinca Neguinho (apelido inventado na hora), 21 anos, fazendo troça da fama do próprio bairro. Se mais vale rir pra não chorar, ele argumenta que a ironia para com os assassinatos na região tem razão de ser. “Mesmo sendo inocente, você está sujeito. De moto, a pé... aqui não tem tempo ruim, não”, sentencia, enquadrando qualquer transeunte como alvo potencial no bairro. Ele conta que as festas comunitárias e os botecos são testemunhas desses episódios, nos quais a violência movida a álcool faz vítimas aleatoriamente. “Quem estiver na rua depois das 22 horas está sujeito”. Já Amanda (nome fictício), 24 anos, contrapõe dizendo que as vítimas são geralmente ligadas ao tráfico de drogas, traficantes e usuários – os “noiados”, grupo no qual ela mesma diz se incluir e no qual se incluía um amigo morto no último dia 7. Tanto que haveria uma lista de 54 deles marcados para morrer no bairro (ver matéria). “Aqui, é só o cara se envolver com droga e está sujeito a morrer a qualquer hora”.

Edição EDIÇÃO 16962




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