CIDADES
Sábado, 05 de Dezembro de 2009, 16h:09
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MÉDICO PERITO
Previdência é pouco atrativa
De tudo um pouco já se ouviu a respeito de como a população, às vezes, tenta se aproveitar indevidamente dos benefícios oferecidos pelo Instituto Nacional do Seguro Social (INSS), como o auxílio-doença. As histórias incluem desde falsos acidentados, que atravessam as ruas tranquilamente, mas passam a mancar dentro das agências, a pessoas que tentam comprar laudos de incapacidade dos peritos médicos. Algumas das irregularidades contam, inclusive, com ajuda de profissionais dos órgãos, como fatos desvendados na Operação Bengala, realizada em Cuiabá, em que 13 acusados dois médicos do INSS inclusive vão responder na Justiça por fraudes. Porém, uma faceta nem sempre abordada dessa realidade das agências do INSS é a dos profissionais que emitem os laudos técnicos que ensejam ou não a concessão de benefícios. Trata-se de uma categoria que, atualmente, só tende a minguar em diversas partes do país e cujo esvaziamento do quadro, já em andamento, pode gerar o caos no setor. Ou seja, mais e mais filas. Por trás disso, está o acuamento dos profissionais pela falta de condições de trabalho e situações recorrentes, como ameaças por parte de segurados quando avaliados como aptos ao trabalho e, consequentemente, sujeitos a perder a verba do auxílio-doença para eles, uma renda extra. Até hoje, juro pra você, entro numa sala de perícia e meu coração começa a bater (mais forte), desabafa J., médica de 30 anos, sobre o nervosismo provocado pela lembrança de uma ameaça de morte recebida de segurados que avaliou tecnicamente como aptos. A ameaça veio em 2006, escrita numa carta; uma experiência de carreira sobre a qual a faculdade de Medicina não foi capaz de alertar. O texto agressivo dizia para que J. e alguns de seus colegas simplesmente parassem de dar tantas altas, pois os autores tinham família pra sustentar e estavam dispostos a tirar-lhes as vidas. Até porque nada tinham a perder. Hoje, J. trabalha mais em caráter administrativo numa outra agência do INSS em Cuiabá, mas não conseguiu a transferência tão logo se abalou pela ameaça. Teve de encarar o medo diariamente até o início deste ano, quando conseguiu mudar de posto e função. No entanto, eventualmente ainda tem de realizar algumas perícias. O pior é que tal ocorrência não é novidade entre os peritos em geral. Tanto que uma ameaça do tipo já foi levada a cabo em 2005, com a morte da servidora Maria Cristina Souza da Silva, chefe da perícia médica numa agência de Governador Valadares, Minas Gerais. Contra essas situações, entre as condições de trabalho atualmente exigidas pelos 49 peritos do Estado encontram-se itens de segurança como detectores de metais nas entradas das agências, seguranças armados e treinados, botões acionadores de alarmes e portas para saídas alternativas de dentro dos consultórios. REIVINDICAÇÕES - Desses itens, atualmente o delegado da Associação Nacional dos Médicos Peritos (ANMP) em Mato Grosso, Salvino Ribeiro, conta apenas com a porta alternativa, conquistada pela reivindicação dos servidores; o detector de metais na entrada da agência do Coxipó, onde trabalha, é mero enfeite não funciona. E isso porque a agência, considera Ribeiro, é razoável e foi reformada recentemente. Mas é pela constante insegurança, pelas pressões internas nas agências (veja box) e pela falta de esclarecimento da função do perito que, em um ano, quatro profissionais abandonaram a carreira em Cuiabá e Várzea Grande. Parece pouco, mas há de se considerar que, do total no Estado, Ribeiro estima que 40% estão em via de se aposentar. E o governo federal anuncia hoje concurso público para apenas 250 novos peritos a serem espalhados pelas agências de todo o país. É pouco.