CIDADES
Sábado, 14 de Junho de 2008, 13h:39
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EDUCAÇÃO
Pancadaria: reflexo de pouco compromisso
Sucessivos confrontos de estudantes em ruas, praça e escolas do Centro denotam que para um número cada vez mais crescente de alunos foco não é aprender
JOANICE DE DEUS
Da Reportagem
Os episódios de violência protagonizados por estudantes das escolas estaduais da região central de Cuiabá há duas semanas revelam uma realidade inegável: o pouco compromisso com a educação e com a aprendizagem e a falta de preocupação consigo mesmo e com um futuro melhor. Só na última na segunda-feira, sete estudantes menores e um maior de idade foram encaminhados para a delegacia de polícia após uma briga na praça Bispo Dom José. Outros dois foram detidos com uma garrucha. Na quinta-feira, mais cinco foram detidos por causa de confusão. São adolescentes e jovens que estudam em instituições de ensino, algumas com mais de 100 anos de existência, por onde já passaram inúmeros alunos ilustres, como o atual prefeito de Cuiabá, Wilson Santos, que também é professor e estudou no Nilo Povoas. Além deste colégio, estão envolvidos nas atuais brigas discentes do Presidente Médici, Cesário Neto e Emília Figueiredo. Entretanto, em novembro do ano passado, o Colégio Salesiano São Gonçalo (CSSG) expulsou 34 alunos do ensino médio de uma só vez, depois da divulgação de cenas de violência em seis vídeos divulgados por eles mesmos pela internet. No mesmo mês, na Escola Estadual Liceu Cuiabano, a filmagem de murros, pontapés e socos entre menores uniformizados também aconteceu várias vezes, inclusive, nos corredores da instituição de ensino. Embora seja necessário levar em consideração o atual universo de estudantes, estas unidades hoje abrigam alunos agressivos e que vão para às ruas brigar por qualquer motivo. Sempre houve alunos menos ou mais interessados. Mas, ultimamente, temos mais desinteressados, reconhece o diretor do Nilo Povoas, Wilton José de Carvalho. Porém, ele observa que a relação entre escola e família mudou muito. Há 20 anos, época em que o Nilo atendia bairros das proximidades, os pais eram mais presentes, parceiros da escola. Hoje, atende cerca de 2.300 estudantes de mais de 56 bairros, sendo que existe uma grande dificuldade em contar com a participação da maioria das famílias, que delega suas funções e responsabilidades à escola ao mesmo tempo em que a critica. O diretor do Médici, Anísio Guimarães, observa que não se pode generalizar. De um universo de 4.500 alunos, tenho 50 a 60 que deixam a desejar, frisa. A maioria é compromissada e pensa no dia de amanhã, reforça. A coordenadora pedagógica do Nilo Povoas, professora Elvira Tereza de Oliveira, também entende que hoje há mais discentes menos interessados, porém, a perspectiva do aluno é diferente. Antes, ele só estudava, não trabalhava. Hoje, tem que se preocupar com a sua sobrevivência, diz. Isso não justifica (a violência). Mas hoje os adolescentes têm mais liberdade, mas não estão usando essa liberdade de forma positiva, frisa. Por outro lado, o coordenador do Programa de Segurança, Disciplina e Qualidade Social nas Escolas da Secretaria de Estado de Educação (Seduc), Carlos Caetano, lembra que, ao analisar a situação, percebe-se que a grande maioria destes adolescentes envolvidos em confusão não tem outra atividade além de estudar de manhã, tarde ou à noite. Isso faz com que fiquem ociosos, possibilitando o acesso fácil a jogos de computadores, televisão e internet, se tornando sujeitos passivos da violência que, muitas vezes, estes meios difundem. Estão vulneráveis a tudo, inclusive, às drogas, observa. Pensando nisso, segundo Carlos Caetano, a Seduc está iniciando um trabalho para envolver esses alunos num processo produtivo e de formação de um novo modelo de agir, com perspectivas de mudanças e realinhamento de comportamento para que consigam se enxergar e aos outros também e gastem suas energias de forma positiva. Cada escola tem projetos específicos, como de rádio, fanfarra e teatro, esclarece o coordenador citando os programas de Resistência às Drogas e Violência (Proerd) e Rede Cidadã.