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Terça-feira, 04 de Dezembro de 2007, 19h:25

FRONTEIRA

Pacientes perdem olho após cirurgias

Acometidos por infecção decorrente de operações oftalmológicas realizadas por médicos estrangeiros na Bolívia, brasileiros tiveram olhos retirados

CLARICE NAVARO DIÓRIO
Da Sucursal de Cáceres
Pelo menos cinco pessoas já procuraram atendimento médico em Cáceres para tratar de uma infecção decorrente de cirurgia oftalmológica realizada por médicos estrangeiros em San Matias, cidade boliviana localizada há 80 quilômetros de Cáceres. Há cerca de dois meses, uma equipe de médicos bolivianos, cubanos e equatorianos começou a operar gratuitamente. Antes, os estrangeiros percorreram municípios brasileiros da região de fronteira, mantendo contatos com prefeituras, igrejas e associações de bairros, em busca de pessoas que necessitassem passar por cirurgia de catarata e pterígio. Faziam uma triagem e orientavam as pessoas a se deslocarem até San Matias, onde operavam no hospital da cidade. O interesse foi grande. Uma cirurgia que custa em média R$ 3 mil sendo feita gratuitamente despertou a atenção das pessoas, principalmente de idosos que sofriam com a catarata. Não se tem dados oficiais, mas a equipe pode ter operado mais de 2 mil pessoas. Há cerca de 15 dias, no entanto, começaram a aparecer pacientes com infecção no olho operado. São casos graves de endofitalmite, que já levaram três dos operados a perda total da visão, com a retirada do conteúdo do globo ocular. A cirurgia de evisceração nessas três pessoas foi realizada no Hospital Regional de Cáceres, pelo médico oftalmologista Odenilson J. da Silva. Tanto ele quanto os outros dois oftalmologistas que atendem em Cáceres – Masato Nakahara e Rafael Vilela - já receberam em seus consultórios pacientes com este tipo de infecção, após a cirurgia. O médico explica que as pessoas estão procurando tratamento tardiamente. “Antes, geralmente, tomam remédios indicados na farmácia ou até mesmo caseiros. Quando chegam a nós, infelizmente o único procedimento possível é a evisceração, pois nada contém a infecção”. A equipe médica que atua em San Matias é formada por médicos latinos graduados em Cuba. São 25 médicos que estão se especializando em oftalmologia e participando de um projeto chamado ALBA-Alternativa Bolivariana para as Américas, decorrente de um convênio assinado entre os dois países, Cuba e Bolívia. As informações são de que a equipe se estabelece por um período em cada região. Há cerca de um mês, dois médicos, um boliviano e um equatoriano, foram detidos pela Polícia Federal na região de Cáceres, por exercício ilegal da medicina. Eles estavam atendendo em uma sala nos fundos da igreja Assembléia de Deus, no distrito do Caramujo, a 30 quilômetros de Cáceres. Na delegacia, não apresentaram documentos que comprovassem a sua situação legal no Brasil perante o Conselho Federal de Medicina. Os médicos de Cáceres procuraram a imprensa para fazer um alerta à população. “Não estamos preocupados com concorrência ou algo assim, mas sim com a saúde da pessoa”, afirmou o oftalmologista Odenilson Silva. “Até agora não há uma comprovação de que eles são realmente formados em Medicina e os relatos de pacientes que passaram por lá chegam a assustar”. Um desses relatos informa que uma criança de oito anos deveria ter sido operada pelos médicos em decorrência do alto grau de miopia, mas a família teve medo e procurou atendimento em Cáceres. O objetivo dos profissionais médicos é alertar e conscientizar as pessoas sobre a falta de estrutura para a realização de cirurgias, que pode acarretar problemas sérios, como o dano irreversível causado a esses pacientes que perderam o olho. Até agora, todos os casos de infecção que apareceram foram em pessoas que passaram por cirurgias de catarata. A maioria delas se deslocou até San Matias levadas por líderes religiosos ou líderes comunitários. A situação já foi levada ao conhecimento das autoridades através de ofícios enviados pelos médicos brasileiros à Secretaria Municipal de Saúde de Cáceres, Ministério Público, Conselho Regional de Medicina e Polícia Federal. As cirurgias de evisceração realizadas em Cáceres aconteceram pelo Sistema Único de Saúde e os pacientes receberam próteses.

Edição EDIÇÃO 16967




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