CIDADES
Terça-feira, 04 de Dezembro de 2007, 19h:25
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Mulher diz preferir tirar o olho
A aposentada Lucinda Gomes de Campos, de 76 anos, está hospitalizada em Cáceres e será submetida a uma cirurgia de evisceração. Prefiro perder o olho a suportar tanta dor, ela diz, conformada. No dia 11 de outubro último, ela foi a San Matias, em um ônibus fretado por uma igreja evangélica. Acompanhada pela filha Gregória, elas gastaram R$ 25. O pacote incluía uma refeição. Gregória, que agora está com a mãe no hospital, conta que o ônibus foi lotado. Minha mãe foi em jejum. Lá, fez um exame de sangue para ver se era diabética. Ao meio-dia foi operada. Às 18h, retornamos para Cáceres. Um mês depois a aposentada começou a sentir dores no olho e na cabeça. O olho fiou vermelho, surgiu a infecção. Voltou para a Bolívia, onde passou por exames e recebeu um colírio para usar no olho infeccionado. A dor se tornou insuportável e ela procurou um médico em Cáceres. Em San Matias, as pessoas esperam por atendimento sentadas em bancos de madeira, fora do hospital. Alguns pacientes contam que os instrumentos cirúrgicos são lavados em água corrente, em uma pia. Nenhum viu os instrumentos sendo esterilizados. Relatos assim levam os profissionais brasileiros a suspeitar que os casos de infecção que estão surgindo sejam decorrentes da falta de esterilização e outros fatores. As cirurgias podem estar acontecendo em um ambiente desfavorável. As técnicas usadas são ultrapassadas explica o oftalmologista Odenilson J. Silva: Eles ainda usam a incisão e o tampão, procedimentos que há muito não são mais empregados neste tipo de cirurgia. O aposentado Manoel de Azevedo, 83 anos, foi para San Matias no dia 12 de outubro, de carro, com a filha e o genro. A filha Aldaíza conta que ficou sabendo da cirurgia gratuita pela boca do povo, era o assunto que se ouvia na cidade inteira. Ela conta que resolveu levar o pai para uma avaliação. No mesmo dia ele foi operado. Com catarata nos dois olhos, ele operou o olho direito, o mais prejudicado. A filha conta que o pai foi atendido primeiro em uma sala, onde passou por um eletrocardiograma e teve a pressão arterial aferida. O médico perguntou se ele era diabético. A pressão estava alta. Deram um remédio e pediram para aguardar. Em uma hora chamaram de volta, aferiram novamente a pressão, disseram que iriam operar e que não havia risco nenhum. Aldaíza conta que o médico tem ao seu lado uma intérprete para possibilitar a comunicação. O aposentado passou pela cirurgia às 8 horas da noite. Voltou para casa e, no dia seguinte, retornou a San Matias para um curativo. Saiu com a recomendação que voltasse em 15 dias, mas nesse período começou a sentir muita dor e voltou cinco vezes ao hospital boliviano. Todas as vezes recebeu injeções dentro do olho, até ele próprio dizer à família que não agüentava mais. Foi então procurar atendimento em Cáceres, onde ficou hospitalizado alguns dias, na tentativa de reverter o quadro. Como a infecção não foi contida, passou pela cirurgia de evisceração. Agora, diz que não tem coragem de operar o olho esquerdo em nenhum país do mundo. (CND)