CIDADES
Sábado, 02 de Agosto de 2008, 14h:04
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REFORMA AGRÁRIA
História sem fim da luta pela terra
Após cinco longos anos vivendo em condições subumanas num acampamento em Porto dos Gaúchos, um grupo de trabalhadores ocupa o pátio do Incra
EDUARDO GOMES
Da Reportagem
Sujos. Maltrapilhos. Alguns descalços. Olhares desconfiados. Reticentes com estranhos. Os 50 integrantes do Acampamento Mandaguari, no município de Porto dos Gaúchos, que ocupam parte do pátio do prédio da Superintendência do Incra em Cuiabá travam com o governo uma verdadeira luta pela cidadania plena. Pressionam pela solução de um impasse que se arrasta há cinco anos. Querem a imissão de posse de uma fazenda desapropriada pelo presidente da República. Vontade de deixar o acampamento no pátio do Incra é o que não falta. Porém sustentam somente farão isso quando forem atendidos. O líder dos acampados, Dirceu Tavares da Silva, é uma mistura de trabalhador rural e sindicalista. A vida não lhe permitiu freqüentar escola, mas o mundo lhe ensinou muito. A gente está num caminho. A cada passo uma porta se fecha nas nossas costas. Não há como voltar. Não há razão pra recuar. A gente pode ir pra lugar nenhum, mas não volta para o nada, filosofa Dirceu com voz pausada. Dirceu cansou de tantas idas ao Incra. Em todas as viagens sempre ouviu de servidores promessas sem consistência e esvaziadas por exigências. Falta isso. Depende daquilo. Seus ouvidos cansaram, a paciência esgotou, mas não renunciou ao sonho da terra. Isso nunca. Sem alternativa, Dirceu juntou um grupo de acampados e montou barracos no pátio do Incra. Estamos aqui há quase dois meses e nada mudou, desabafa. Cinco anos de tramitação. Ora na esfera administrativa do Incra. Ora na Justiça Federal. A papelada da desapropriação da fazenda Mandaguari hiberna, empaca, empaca, hiberna. O grupo que ocupa o pátio do Incra pensa igual aos demais do acampamento distante 670 km de Cuiabá. Ninguém se preocupa mais com a fase processual, com detalhes e justificativas. O que todos querem é terra. Os donos da fazenda, legítimos proprietários da área, moram no interior paulista e se defendem em todas as esferas. Ocupação da sede e barracos armados no entorno do órgão fundiário federal são fatos corriqueiros em Cuiabá. A Assessoria de Comunicação do Incra não conseguiu agendar uma entrevista com o superintendente João Bosco Moraes, para falar sobre o assunto. Um pacto pela sobrevivência une os ocupantes da área externa do Incra. O sentimento é um só: ninguém arreda o pé. Os representantes do Acampamento Mandaguari prometem que permanecerão em Cuiabá, alojados em barracos de lona pelo tempo que se fizer necessário. Até quando resistirão nem eles sabem. Imprevisível também é o desfecho desse caso de luta pela posse da terra num estado onde o que mais sobra é exatamente terra. Na segunda-feira, quando os servidores do Incra retornarem ao trabalho certamente se depararão com os integrantes do Assentamento Mandaguari, grupo formado por sujos, maltrapilhos, alguns descalços, olhares desconfiados, reticentes com estranhos, tal qual foi definido na abertura desta matéria. Assim é a rotina do trabalhador sem-terra na frieza do enfoque jornalístico e no olhar distante das figuras encarregadas pela execução da política de reforma agrária.