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CIDADES
Sexta-feira, 14 de Agosto de 2009, 21h:17

OPERAÇÃO GAFANHOTO

Comparsa de Uemura muda versão e acaba entregando empresário

Por mais de 4 horas em novo depoimento à Justiça, Renê Oliveira, ex-braço-direito de acusado de esquema criminoso, delatou todas as tramóias

KEITY ROMA
Da Reportagem
Drama e irreverência marcaram o depoimento do “testa-de-ferro” Renê dos Santos Oliveira, que ontem pediu para ser ouvido em juízo novamente, mudou de versão e incriminou o comparsa, o empresário do ramo hortifrutigranjeiro Júlio Uemura. Renê revelou com detalhes o esquema de aplicação de golpes financeiros milionários que teria rendido ao menos R$ 5 milhões a Uemura, apontado como o líder da organização criminosa evidenciada na Operação Gafanhoto, em março. O estelionatário afirmou que todas as ilegalidades que causaram a falência de empresas Brasil afora foram cometidas com o apoio integral e com a anuência de Uemura. Renê já havia sido interrogado na Vara de Combate ao Crime Organizado, em junho, mas, na ocasião, negou ter cometido os crimes e inocentou Uemura. A súbita mudança de versão seria reflexo do que o réu chamou de “deslealdade” do parceiro. “Queria que ele (Uemura) estivesse aqui agora para olhar no olho e dizer: olha o que você fez comigo. Olha o que você fez com você”, disse o delator em tom de desabafo. Chorando, Renê afirmou que quando começou a trabalhar com Uemura tinha um “pacto de lealdade”. Porém, no momento de dificuldade, após a Operação Gafanhoto, ficou desamparado. Com o comparsa com quem mantinha relações estreitas de confiança e amizade, não conseguiu sequer a contratação de um advogado para sair da prisão. “Não fico preso sozinho mais. Assumi a responsabilidade para mim, dei minha cara para bater, mas ele não foi leal. Enquanto a gente ficou 80 dias sofrendo na prisão, ele ficou em casa. Quando saí, o procurei para me ajudar a reconstruir minha vida e ele nunca quis me atender. Pediu para não procurá-lo mais”. Fruto da decepção pessoal ou das vantagens de redução de até um terço da pena por delação premiada, as revelações de Renê confirmam as denúncias do Grupo de Atuação e Combate ao Crime Organizado (Gaeco) e comprometem ainda mais o empresário Júlio Uemura. Renê revelou que o esquema de estelionato começou quando ele ainda morava em Belo Horizonte (MG) e, por meio de intermediário, conheceu Uemura, a quem passou a vender cargas de hortifrutigranjeiros. “Ele perguntou: tem tomate? Falei: tenho. Tem firma para mandar? Falei que não tinha e ele me mandou os dados da empresa Canadá”, contou. A Canadá Atacadista foi então a primeira empresa a ser utilizada para dar calotes pelo grupo em produtores rurais e para burlar o Fisco, já que cargas da Comercial Uemura eram despachadas com notas fiscais frias da Canadá. Com a prática criminosa dando bons resultados e com o desgaste da Canadá, passou a usar o nome das laranjas Sewal Hortifruti e Tradexco Comércio de Gêneros Alimentícios. Renê revelou que se passava por dono das empresas “laranjas”, usando o nome de terceiros, e negociava com os fornecedores de outros estados a compra de grandes quantidades de produtos hortifrutigranjeiros. As primeiras aquisições das empresas eram pagas integralmente por Uemura. Contudo, quando o estelionatário obtinha crédito com os fornecedores, comprava a prazo e não efetuava o pagamento devido. As vítimas acumulam um prejuízo de ao menos R$ 4 milhões. Algumas até faliram. Uemura pagava a Renê entre 30% a 40% do real valor de mercado de cada carregamento e tinha um lucro de 70% superior ao da concorrência. Antes de receber o golpe, um dos produtores rurais que fornecia bananas veio a Cuiabá. Apesar de Uemura ter fornecido um barracão para Renê para sediar a laranja Sewal, não havia estrutura no local. Nessas ocasiões, Uemura cedia as próprias instalações para enganar as vítimas e Renê usava a estrutura como se lhe pertencessem. O estelionatário revelou que toda a família Uemura era conivente com os crimes patrocinados pelo patriarca. Já em relação aos nomes usados como laranjas nas empresas, ele disse que eram pessoas ludibriadas que ganhavam apenas R$ 500 por mês.

Edição EDIÇÃO 16967




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