CIDADES
Quinta-feira, 03 de Janeiro de 2013, 20h:22
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PROLIFERAÇÃO
Cidade está loteada
Flanelinhas estão nos pontos mais movimentados de Cuiabá e se transformaram em um problema social
STÉFANIE MEDEIROS
Da Reportagem
Falta de políticas públicas, ações sociais e fiscalização, mais a ausência do sistema de estacionamento rotativo e do Faixa Verde, fizeram com que o número de flanelinhas aumentasse muito durante o ano de 2012. Seja para sustentar o vício de entorpecentes ou para complementar a renda familiar, estes trabalhadores informais muitas vezes estão envolvidos em brigas e pequenos furtos. O diretor de trânsito da Secretaria Municipal de Transportes Urbanos (SMTU), Jackson Messias, explicou que a grande proliferação de flanelinhas pela cidade se deve à ausência dos agentes do Programa Faixa Verde desde maio de 2012. Sem o estacionamento rotativo, eles voltaram a lotear a região central e pontos com maior movimento. As reclamações em relação a estes trabalhadores informais aumentaram muito este ano. Segundo ele, após o Faixa Verde voltar a funcionar, o problema será amenizado, mas não resolvido. Messias diz ainda que há muitos B.O.s registrados de conflitos entre os flanelinhas e os monitores do programa. É ameaça, briga por determinada rua. Mas só a volta da Faixa Verde não vai resolver o problema, é preciso realizar um trabalho social com estas pessoas, registrá-las, absorvê-las no mercado de trabalho. Depois de tentar negociar com a reportagem sua entrevista, Álvaro Cachorro Louco, 37 anos, concordou em falar sobre sua rotina e de como o vício por pasta-base de cocaína é um balão furado que não adianta encher. Segundo ele, para a maioria das pessoas, cuidar dos carros serve apenas para sustentar o vício sem ter que roubar. Na real mesmo, é isso. Tem 19 anos que eu estou na rua fazendo este serviço e 22 que sou dependente químico. Ao contrário da maioria dos flanelinhas, Álvaro concluiu o ensino médio e fez cinco semestres de pedagogia da Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT). Já passou em um concurso para ser bombeiro, teve um estúdio de tatuagem e gerenciou uma loja de informática. Mas é como eu te falei, o vício faz tudo desandar, deu tudo errado pra mim. É que nem o balão furado mesmo. Casado, Álvaro conta que não passa todas as noites em casa, muitas vezes dorme na rua. Tem quatro filhos e um neto. Trabalhando na companhia de Fábio Pitbull, de 19 anos, Álvaro conta que sente pena dos meninos que entram no mundo das drogas muito cedo, como ele. Aos 13 anos de idade, por conta da influência de colegas, começou a usar substâncias químicas. A situação chegou ao extremo, ao ponto de Álvaro ter sido preso três vezes por assalto a mão armada para conseguir pasta-base de cocaína. Mas hoje eu passei dessa fase, trabalho aqui pra sustentar meu vício. Os flanelinhas dividem as ruas, sendo cada um responsável por uma região. Os mais antigos têm prioridade sobre uma área, e geralmente trabalham em duplas. Cuidando dos carros de uma rua próxima a de Álvaro, Pedro Silva (nome fictício), 16 anos, conta que foi expulso da escola três vezes e que decidiu largar os estudos quando começou a trabalhar, aos 11 anos de idade. Apesar de muito jovem, Pedro é responsável pela rua San Thiago há cinco anos e já se envolveu em muitas brigas. Ele relembra o caso de um motorista que o empurrou e acabou levando uma pedrada nas costas. Ele veio com ignorância pra cima de mim e eu não aceito este tipo de coisa. Se não fosse a mulher dele pedindo pra eu me acalmar, teria batido nele mesmo, disse. Pedro tem uma filha de dois anos de idade.