CIDADES
Sábado, 09 de Junho de 2007, 14h:27
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ESPECIAL VI
Brasil só mantém a vanguarda com energia sustentável
Relatório do WWF Brasil avalia que escolhas do país nos próximos 15 anos serão cruciais à segurança energética e ao desenvolvimento
RODRIGO VARGAS
Da Reportagem
Não será possível atacar as causas das mudanças climáticas sem modificar de forma profunda o atual cenário de geração e consumo de energia em escala global. E o Brasil, que já ocupa papel importante nas negociações internacionais sobre o uso de fontes alternativas, tem diante de si uma formidável janela de oportunidades. Para se manter na vanguarda pelas próximas décadas, contudo, o país terá de fazer uma opção concreta pela sustentabilidade em seu modelo elétrico. É o que defende a ong WWF Brasil, no relatório Agenda Elétrica Sustentável 2020, cuja segunda edição foi lançada em março deste ano. As escolhas que serão tomadas no setor brasileiro de energia elétrica nos próximos 15 anos serão cruciais à segurança energética nacional, ao desenvolvimento econômico e social e à proteção ambiental do país. [Se] forem equivocadas, podem levar o país a se colocar na contramão de acordos e esforços globais, diz um trecho. Uma desses caminhos errados, na visão da entidade, é o que passa por usinas de geração a partir da queima de combustíveis fósseis (gás natural, carvão e derivados de petróleo). Para os próximos 15 anos, espera-se que a participação deste segmento suba dos atuais 18% para 25% da produção nacional. Outro passo em falso seria a expansão acelerada da capacidade instalada de geração, a uma taxa estimada em 5% ao ano. Os números constam de estudos governamentais, como o Plano de Longo Prazo da Matriz 2023, do Ministério das Minas e Energia, e o Plano Estratégico da Petrobras (2006-2010). A este panorama, chamado de tendencial, o WWF contrapõe o que seria um cenário elétrico sustentável, que prevê um ritmo de ampliação menor (2% ao ano), queda da participação das termelétricas (14%) e ampliação do uso de usinas que usam fontes renováveis (22%). O cenário Elétrico Sustentável implica em uma drástica redução da taxa de crescimento da expansão da capacidade instalada para geração de eletricidade, diz o relatório, produzido em parceria com pesquisadores da Universidade de Campinas (Unicamp). Mas como evitar um novo apagão sem um ritmo de investimentos que acompanhe o crescimento da demanda? De acordo com a proposta, o segredo estaria na ampliação do uso de novas fontes renováveis (biomassa, energia eólica, PCHs, solar térmica e fotovoltaica), combinada a um uso mais eficiente do sistema. Nas etapas da transmissão e da distribuição, por exemplo, as perdas são estimadas entre 16% e 17% por conta das longas linhas de transmissão e dificuldades de manutenção da rede básica e transformadores, principalmente. Nos EUA e União Européia, essas perdas são de 8% e 6,5%, respectivamente. Na ponta do consumo, também há grande potencial de economia. Na indústria, na troca dos atuais motores. Nas residências, com a substituição de chuveiros elétricos por sistemas de aquecimento solar e das lâmpadas incandescentes pelas fluorescentes compactas. Maior eficiência energética, especialmente no lado da demanda, é uma estratégia essencial para permitir economia de recursos e possibilitar uma substituição de fontes fósseis e o fim da construção de grandes usinas hidrelétricas. Essa combinação de medidas, segundo a ong, significaria uma diminuição no desperdício de energia de até 38% da expectativa de demanda, permitindo evitar gastos da ordem de R$ 33 bilhões em geração, transmissão e distribuição até 2020. Este cenário evitará a implantação de mais de 74 mil MW no sistema elétrico nacional, o que corresponderia a aproximadamente 57 Angras III, ou 14 Belos Montes, ou seis Itaipus, ou sete vezes a capacidade instalada que o Plano Decenal de Expansão 2006-2015 planeja dentro de 10 anos para a região amazônica.