CIDADES
Sábado, 06 de Abril de 2013, 13h:32
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OCORRÊNCIAS
Arquivos mostram histórico da violência
Crimes como a morte de Anna 50 Litros e o estrangulador de velhinhas assustaram a população no final do século 19
GUSTAVO NASCIMENTO
Da Reportagem
Cuiabá nunca foi uma cidade tranquila ou pacata. Contrariando a tese popular que afirma que antigamente a região seria um lugar mais calmo para se viver, registros do Arquivo Público do Estado de Mato Grosso mostram mais de três mil crimes, entre eles, alguns de extrema violência ao longo dos quase três séculos de existência da Cidade Verde. O historiador e mestre em história pela Universidade Federal de Mato Grosso (UFMT), Hélio Santos, trabalha há seis anos no Arquivo Público. Ele conta que não gostava dos arquivos que mostravam os crimes antigos, mas com o tempo se apaixonou pela temática de tal modo que utilizou para pesquisa de mestrado e futuramente vai utilizar para tese de doutorado. Segundo Hélio, os registros históricos do cartório do 6º ofício penal provam que nem agora e nem no período imperial a cidade deixou a desejar para outros centros, no quesito violência e segurança. Antes de tudo é bom entender que nem todos os arquivos estão aqui, muitos se perderam com o tempo. Mas, só esse número já desmitifica o fato que a violência é só hoje. Ela sempre existiu. Os níveis de violência eram um pouco menores, mas a maioria das pessoas se esquece de relacionar a incidência com o tamanho da população. Por exemplo, na metade do período imperial, a cidade tinha o mesmo número de habitantes que um dos bairros do CPA, logicamente o número de assassinatos é menor, mas e a porcentagem? Em 1877, um dos crimes que chocou a comunidade cuiabana da época foi a morte de Anna, conhecida popularmente na época como 50 litros. Manoel José dos Santos se tornou obcecado pela mulher e após separação, ele começou a perseguir a vítima. Em um determinado momento, enlouquecido por ciúmes, desferiu diversas facadas em Anna 50 litros e a matou. Esse crime, por exemplo, foi um escândalo e virou até história no livro Crimes Célebres de José de Mesquita, na década de 1920. Também teve outros casos bizarros como um estrangulador de velhinhas nos anos 1930. Ou o quebra-quebra generalizado que veio desde a avenida Dom Bosco até a Cândido Mariano. A confusão foi causada pela família Calhao e terminou até em assassinatos. MULHERES Os crimes envolvendo mulheres foram em sua maioria subnotificados. Como os homens teriam vergonha de afirmar que haviam sofrido qualquer tipo de lesão corporal ou golpe os casos não chegavam até a polícia. Tem pessoas que acreditam que as mulheres não saiam de perto do marido. Porém, isso não procede. Os relatos mostram as mulheres cometendo e sofrendo crimes, inclusive, sendo informantes, já que na época não podiam ser testemunhas, assim como escravos e crianças. Ou seja, saíam, e saíam sozinhas. Para o pesquisador, apesar do número alto de crimes cometidos, a taxa de absolvição era extremente alta, beirando os 60%. Isso acontecia por diversos fatores, alguns que vemos até hoje, como por exemplo, quando os acusados eram poderosos da elite. Contudo, havia mais fatores como a falta de capacitação do júri que absolvia até mesmo réus confessos, concluiu.