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CIDADES
Sábado, 20 de Junho de 2015, 13h:01

MIGRAÇÃO

A luta dos haitianos para estudar

A língua é uma das maiores barreiras na luta que os moveu do país de origem: um emprego que lhes possibilite a sonhada estabilidade financeira

ALECY ALVES
Da Reportagem
Estima-se que o número de haitianos vivendo em Cuiabá já passe de 2 mil. Com tantos imigrantes dispostos a fixar moradia aqui, deixando para trás uma situação de miséria que agravou-se pela devastação provocada por um grande terremoto ocorrido em 2010, o Estado está sendo obrigado a adaptar-se a essa nova realidade para atendê-los com serviços nas mais diversas áreas. No campo da Educação, as demandas estão pipocando em diferentes centros urbanos. É que a língua constitui-se como uma das maiores barreiras na busca que os moveu do país de origem, ou seja, um emprego que lhes possibilite a tão sonhada estabilidade financeira. Por enquanto, o que está sendo oferecido são projetos pontuais. Na capital, por exemplo, até o primeiro semestre do ano passado os haitianos aprendiam o português em cursos rápidos ministrados por voluntários na Casa do Migrante, entidade mantida pela igreja católica. Depois, no segundo semestre, a Secretaria Estadual de Educação (Seduc) se viu obrigada a abrir salas especiais para ensinar a língua materna brasileira. Os primeiros 100 haitianos matriculados, jovens e adultos, estudaram em salas emprestadas. Com cerca de 1 mil alunos entre surdos, cegos, cadeirantes e egressos do sistema prisional (muitos ainda sob o monitoramento de tornozeleiras eletrônicas), este ano a escola resolveu a questão da falta de espaço e abriu salas para os haitianos em sua própria sede, no bairro CPA III. Solucionanda a questão da sala, a escola, habituada a ensinar inglês ou espanhol como segunda língua, precisava de professor de crioulo e francês (língua natural e oficial, respectivamente, no Haiti). Para tradutor de crioulo, contratou o ex-missionário religioso brasileiro Rafael Alexandre Lira, que viveu por quase um ano no Haiti. E para ensinar o português, admitiu a professora Silvina Jana Gomes, natural de Guiné Bissau, formada em letras com habilitação em francês pela Universidade Federal de Mato Grosso. Habilitado à escolarização tardia para ensinar por área de conhecimento, o Centro de Educação de Jovens e Adultos (Ceja) Almira de Amorim Silva tornou-se referência no atendimento dos haitianos. A coordenadora pedagógica do Ceja, Almira Silva, Maria Aparecida Duarte, explicou que foram necessárias adaptações dentro do que constitui a primeira área de conhecimento para priorizar a linguagem oral e escrita e criação de salas especiais dos haitianos. Assim que superam a barreira da língua e deixam essas salas, os alunos, se quiserem, podem seguir estudando em salas regulares junto com brasileiros. É o que está fazendo Carnes Ilozier, 37 anos. Ele frequenta o supletivo do ensino médio com o objetivo de alcançar a certificação, assim conquistará o mesmo nível de formação que tinha no Haiti. Já Gueby Gargan, 25 anos, no Brasil há três meses, pelo pouco tempo de escolarização ainda está em sala especial, mas já sabe o básico do português. Segundo ele, esse básico é suficiente para se comunicar no trabalho, na comunidade religiosa que frequenta e estabelecer relações em geral, mas não para alcançar seu grande sonho. O jovem haitiano, graduado em Administração em seu país, quer cursar medicina no Brasil, em faculdade pública. Atualmente ele trabalha em um supermercado, repondo mercadoria e ajudando nas entregas.

Edição EDIÇÃO 16967




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