BRASIL
Sexta-feira, 25 de Junho de 2010, 20h:31
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CRIANÇAS DE MURICI
Passatempo: ficar 'na tocaia' das doações
Segundo o último boletim divulgado na tarde de ontem pela Defesa Civil, o número de vítimas fatais chegou a 51, sendo 34 em Alagoas e 17 em Pernambuco
ANGELA LACERDA e MONICA BERNARDES
Da Agência Estado Murici e Recife
A cerca que ladeia a BR-104 na entrada de Murici, a 50 quilômetros de Maceió e com 4,6 mil desabrigados, serve de varal para parte das famílias que perderam suas casas e estão distribuídas em prédios que se mantiveram de pé. O somatório da tragédia causada pelas chuvas, que atingiram fortemente Pernambuco e Alagoas na semana passada, continua crescendo. Ontem, o número de vítimas fatais chegou a 51, sendo 34 em Alagoas e 17 em Pernambuco. ANGÚSTIA Em quatro galpões vizinhos da rodoviária, nesta área, cerca de 200 delas dividem dissabores, reclamações e a angústia da incerteza. Patrícia Paula da Silva, 40 anos, mãe solteira de quatro filhos, diz que "já vivia em estado de calamidade antes da cheia", mas tinha "seu canto". Em Murici, seis pessoas morreram e 4.102 casas foram destruídas. As famílias tentam demarcar seu espaço dentro do abrigo. O principal passatempo das crianças - são muitas - é ficar "na tocaia" das doações. Na manhã de ontem, dois caminhões pararam no local para distribuir frutas e biscoitos. Quem quer doar roupa prefere deixar na igreja. "Eles iriam rasgar tudo, na disputa", assegura Flávia da Silva, 26 anos, que vende frutas na Ceasa de Maceió e foi levar o que os comerciantes juntaram. Os lençóis e roupas doadas são "lavados" em um riacho barrento próximo, onde eles também se banham. "Sem sabão", diz Maria Lima da Silva. O lixo se amontoa do lado de fora dos galpões. Além das doações, equipes de voluntários trabalham dia e noite para preparar e levar três refeições diárias aos desabrigados. Feijão, arroz e salsicha picada e carne moída ao molho de tomate foi o almoço de ontem. Na cozinha coletiva, organizada em um prédio da prefeitura, mais de 50 pessoas preparavam macaxeira e carne de charque para a próxima refeição. Em um canto do espaço, uma televisão salva por uma família de desabrigados transmitia o jogo de Brasil e Portugal. Josielma da Silva Santos, que há dois meses deu à luz a primeira filha, "se agonia com a zoada". PREJUÍZOS A curva dos prejuízos materiais também permanece crescente. O total de municípios afetados pelas enchentes já é de 95, 67 pernambucanos e 28 alagoanos. Desse total, 24 estão em estado de calamidade pública e 30, em situação de emergência. O número de desabrigados e desalojados nos dois Estados é de aproximadamente 160 mil, segundo as defesas civis. Os danos estruturais também aumentaram. O total de quilômetros de estradas danificadas quase dobrou, pulando de 2.295 para 4.334, de acordo com dados do Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (DNIT). Houve comprometimento em pelo menos 132 pontes. Em Pernambuco, calcula-se que 12 mil imóveis foram destruídos. Em Alagoas, este número já ultrapassa 20 mil. DESTRUIÇÃO Apesar da destruição e das dificuldades em conseguir água potável e energia elétrica, em muitas cidades a população trabalha duro para tentar resgatar alguns bens e reconstruir a vida. As doações de roupas, alimentos, água e material de higiene e limpeza continuam chegando às cidades afetadas, com o apoio do Exercito, Bombeiros e Polícia Militar. Em Barreiros, na Mata Sul pernambucana, o hospital de campanha montado pela Aeronáutica, desde a última quarta-feira, atingiu, na tarde de ontem, a marca de 250 atendimentos. De acordo com o coordenador da operação, o médico e coronel Jorge Viana Annibal, a maior parte dos atendimentos até o momento são de casos envolvendo ferimentos infeccionados, mal estar em idosos e gestantes, febre, diarreia e vômito. As equipes médicas se preparam para receber, nos próximos dias, casos de hepatite, leptospirose e cólera, doenças provocadas por águas contaminadas. A equipe é formada por 14 médicos e 20 técnicos em saúde. Esta mesma unidade esteve durante 135 dias no Haiti, após o grande terremoto de 7 graus na Escala Richter, ocorrido em 12 de janeiro deste ano.