Azul
Sábado, 16 de Fevereiro de 2002, 14h:35
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MEMÓRIA/FUTEBOL
ZIZINHO O craque que Pelé queria ser
Neste início de 2002, aos 80 anos, Brasil perdeu Zizinho - um dos maiores nomes do nosso futebol, em todos os tempo
JOÃO MOREIRA SALLES E ROBERTO BENEVIDES
Do site No.
Tomaz Soares da Silva, Zizinho, o Mestre Ziza, era o que Pelé menino queria ser quando crescesse. Aos 80 anos, ele morreu em Niterói sem a glória de ter sido campeão do mundo perdeu sua única chance em 1950 em pleno Maracanâ - mas reconhecido como um dos maiores gênios do futebol. Para o documentário "Futebol", de João Moreira Salles e Arthur Fontes, Zizinho deu longa entrevista a João e ao jornalista Roberto Benevides. Apenas pequena fração dela pôde ser aproveitada na versão final. Nela, fala de tudo. Conta a tragédia de 50 e diz que os uruguaios ganharam porque tinham um ótimo time. Discorre com sabedoria sobre futebol. Fala da intimidade com a bola. Do valor do drible -"diminui o espaço". Do recurso "válido" de enfiar uma bola entre as pernas dos adversários por mais desmoralizante que isso seja. Leia trechos desta entrevista. - Como é que você nasceu para o futebol, quando é que você começou a jogar bola? Zizinho - Bem, eu não tive assim um início eu já nasci dentro de uma sede de futebol. Meu pai era presidente de um clube chamado "Carioca" no município de São Gonçalo e a sede era na minha casa. Então já convivi desde que nasci dentro do futebol, jogava lá ... brincava com futebol quando eu tinha 3, 4 anos com os jogadores que jogavam no clube do meu pai. Vivia sempre com uma bola no pé. - Futebol se aprende, Zizinho? Zizinho - Bem se você quiser aprender muita coisa você aprende mesmo. Acredito que as vezes você comete um erro numa partida que depois você treina e aquele erro, que para muita gente é erro você passar a usar como virtude. Também tem que ter dom pra jogar, você não pode pegar um leigo qualquer, um cara que nunca jogou e botar num canto pra jogar que fica muito difícil. - Você tem frases maravilhosas sobre a bola. Você sempre teve a muita intimidade com ela. Foi sua amiga. Fala um pouquinho dela como se fosse uma pessoa. Zizinho - Eu vivi com a bola desde que nasci. Gosto da bola até hoje. Não posso jogar mas, escrevo sobre a bola. A bola no pé do jogador de futebol é como você estar com um taco numa mesa de sinuca. Você pode fazer uma porção de coisas com a bola só que tem gente que não gosta de perder tempo com isso. Você pode dar efeitos, pode puxar a bola para ela voltar para o seu pé, pode tirar a velocidade dela. Então se você quiser aprender, fica sozinho com a bola e você aprende coisa à beça. Por que a bola saiu com pouca velocidade, por que tomou uma rotação assim, ao invés de tomar uma rotação assim. Você faz tudo com a bola. Agora, tem que gostar dela. É a sua profissão. - Ela retribui? Zizinho - Eu acho que sim. Acho que ela tem vida própria. Tem jogo em que ela tem vida própria. Toma efeitos que você fica louco mas, eu acho que ela tem um pouco de vida ela gosta de quem trata ela bem. - A bola corria atrás de você? Zizinho - Não, a gente é que corria atrás dela à beça. Teve uma partida em que eu perdi 4 quilos e meio no Maracanã. Porque eu tinha gozado o meu diretor, dizendo que o time dele, que o time adversário era freguês. Eu sabia que esse diretor nosso gostava desse clube e levava muito a sério esse jogo, né... E quando chegou lá botaram 2 a 0 na gente e nós tivemos que virar o jogo. Eu não consegui ver o relógio do Maracanã, mas eu via o movimento do público caminhando para aquelas saídas do Maracanã, eu dizia Meu Deus, tem 10 minutos pra acabar e estamos tomando de 2 a 0. Daí eu virei essa partida. Virei pra 3 a 2 esse jogo e nesse dia perdi 4 quilos e meio. Eu queria tirar minha chuteira e não conseguia tirar. Dava cãimbra. Foi um drama para tirar a roupa. Acabaram me ajudando. Bem, eu nunca engordei em campo. Eu perdia peso mesmo. - Qual foi o maior jogador que você viu no Brasil? Zizinho - Eu vi muita gente boa em suas posições. Digo sempre que se eu fizesse uma seleção do mundo vários jogadores brasileiros jogariam. O Domingos (da Guia), nosso tio mais velho era uma beleza. - Por que que Domingos da Guia era bom? Zizinho - A bola parece que tinha imã. O sujeito fazia uma tabela nele ou ele roubava no primeiro toque ou roubava no segundo. Ele parece que adivinhava o que íamos fazer. Ele era uma coisa muito séria o Da Guia. O Nilton Santos pô, ah ... jogadores brasileiros jogariam em qualquer seleção no mundo em todas as épocas, sem falar no Pelé e essas feras que o mundo conhece. Domingos pouca gente sabe quem foi. Não tem filme do Pelé aí? Você vê quem foi a fera. - Como é o fim da carreira de um jogador? Zizinho - Eu acho que no fim da carreira você fica com uma saudade danada, você gosta de futebol mas eu acho que quando o jogador sente que os garotos estão ficando muito rápidos pra você, é melhor parar antes de fazer um papelão. Os garotos começam a ganhar você na corrida , você tem que driblar eles duas vezes porque estão sempre na sua frente. - Você foi um jogador rebelde? Zizinho - Eu sou rebelde até hoje eu não vou mudar nunca. Se eu não gostar de uma coisa eu digo, seja quem for. Posso até engolir pra uma pessoa mais humilde, pra uma pesoa grande eu não vou engolir não. Se estou com a razão que se dane o mundo. Eu era sempre assim, por isso eu não fui na Copa de 54, por isso eu não fui na Copa de 58. Em 58 quiseram me levar em cima da hora. Iam cortar um garoto pra me levar. Eu disse vocês tiveram tempo à beça de me convocar e não convocaram . Não faço mais questão de título nenhum. Não joguei, não fui. Isso é rebeldia? Não. - Essa altivez faz parte do perfil do craque, o craque tem que ter isso a relação com o futebol, com o clube, com o treinador. Zizinho - Eu fui criado pela minha avó, e ela ensinou isso pra mim: "Meu filho não minta, porque a mentira tem perna curta e você depois vai ter vergonha de olhar pra pessoa e nunca se abaixe que as coisas aparece". Eu sou assim, esse sou eu. - Craque tem que se impor? A gente vê muitos jogadores de muito talento que não se firmaram. Foi porque não souberam se impor? Zizinho - Futebol é um jogo de homem. Se você divide uma bola, o cara pode ter 100 quilos o que vale é o homem. Na hora de dividir você tem ganhar pôxa, e quando perder você tem que ficar com um pouco de raiva que você perdeu uma bola dividida, você perdeu uma briga de homem, que é uma bola dividida. - No futebol de hoje ainda há jeito do jogador descobrir espaço? Zizinho - Olha o espaço tá na cabeça do jogador que tem a bola, e na cabeça daquele que vai receber. Outro dia o Rivaldo fez quatro lançamentos em menos de dez minutos de jogo, Prova que há espaço. Acho que um técnico no princípio de uma partida pede toda a atenção pra equipe dele pra não tomar um gol de saída. Ninguém gosta de tomar um gol de saída, pode haver um descontrole. Então, eu acho que a obrigação do técnico é mandar ter atenção . Esses três lançamentos do Rivaldo em menos de dez minutos levaram o Palmeiras a fazer um gol (acho que foi contra o Grêmio). O espaço existe, taí. Não tá no pé não, tá aqui (aponta novamente para sua cabeça) na visão do jogador. - Tem gente que diz que driblar é inventar espaço Zizinho - É diminuir o espaço. - Fale do drible. Zizinho - Não, eu digo às vezes é diminuir o espaço porque você começa, cai na bola e sai pra um drible você não tá olhando pra frente, as vezes estando bem colocada, tá a cinquenta metros de você você pode meter essa bola lá pô, ia meter muito mais rápido do que está segurando ela no meio do campo, agora é preciso que o jogador tenha tenha visão do jogo pra encontrar esse espaço. O drible é uma coisa que se dá pela área pra chegar no gol, agora uma bola que te aperta demais você tem que sair driblando mas, o espaço se cria mais lá de trás. - O técnico hoje ajuda mais ou atrapalha? Zizinho - Olha, eu acho que há determinadas coisas no futebol tinham que ser proibidas. Parar jogada, isso às vezes é de uma burrice. Se o sujeito tá de costas para o gol você cerca ele, vai fazer falta por que? E no país onde tem os maiores cobradores de falta do mundo que é o Brasil, os caras fazem isso ainda pô. Então tem partida que tem sessenta faltas às vezes a metade é desnecessária porque os técnicos mandam pegar, "tem que pegar tem que pegar tem que pegar!". O futebol brasileiro tá se tornando o futebol mais violento do mundo, eu acho que tem muita gente atrapalhando o futebol. - O que um garoto que quer ser jogador de futebol, um garoto de 10, 12, 15 anos precisa ter hoje em dia? Zizinho - O Brasil é um país do futebol. Ao lado do campo do Bangu existiam seis campos onde os garotos jogavam. Acabaram com tudo. Onde eu nasci tinha uma porção de campos de futebol. Hoje não tem mais nada. Estão acabando com os espaços dos garotos pra jogar futebol, então os garotos estão jogando futebol na praia, estão jogando futebol em quadra. Só joga em quadra quem tem algum recurso porque geralmente é quadra em clube e o garoto pobre não chega nunca lá na quadra, o garoto do morro não chega nunca lá na quadra então estão quase proibindo os garotos brasileiros de jogar futebol. Então tem as escolinhas que é paga, então o garoto pobre vai ficar... vai ser cada vez mais pobre e com menos recurso até pra jogar futebol até pra ser atleta. Eu acho que tá faltando pra criança brasileira esse espaço e quem não tem o que fazer faz coisas más, eu acho que é isso que eles querem é isso que eles estão querendo que aconteça e... é esses garotos que já com dezesseis anos dezessete anos já tem uma metralhadora na mão.