ARTIGO
Sábado, 31 de Maio de 2014, 19h:26
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BENEDITO PEDRO DORILEO
Turma do Morro
Estava fundada a Rádio A Voz dOeste em 15 de outubro de 1939. A legalização era exigida; cumpridas as exigências burocráticas, a Estação recebeu o prefixo PRH-3 para emitir em onda média de 1.160Kc. Na inauguração em 12 de dezembro de 1944, há 70 anos, a acadêmica Maria de Arruda Müller, então presidenta da Comissão Estadual da Legião Brasileira de Assistência e primeira-dama do Estado- exaltou em sua oração:... quando cessarem as convulsões da terra doente, enferma de ambição, quando soarem os acordes da alegria construtiva, o fremir do trabalho que dignifica o gênero humano, asseguradores do conforto e da tranquilidade, o Rádio será então como a escola, a alta fonte da difusão da cultura. Das montanhas geladas da Itália da segunda Grande Guerra vinham as notícias, entremeadas com os programas lítero-musicais da primeira emissora, tendo os ensaios na casa de Danglars e Zulmira Canavarros. Conjuntos vocais apresentavam-se como a saudosa Turma do Morro, das décadas de 40 e 50, grupo tão harmônico quanto Quatro Ases e um Coringa, na apreciação do teatrólogo brasileiro, Procópio Ferreira, que frequentemente acompanhava o movimento artístico em Cuiabá. Participaram da Turma do Morro: Chiquinho, Jete, Pery, Gy e Rômulo. E mais tarde Benjamin Ribeiro, Beny Ribeiro, Benilton e Carlos Ribeiro, Arnaldo Leite e Juarez Silva. Do morro da Prainha, após frequentes ensaios, à sombra das mangueiras do Colégio São Pedro, fundado pelo patriarca, mestre André Avelino Ribeiro, em 1905, desciam os artistas amadores cantarolando pelas bucólicas ruas da cidade cuiabana. Os rapazes tinham os dedos de prata na afinação dos instrumentos de corda. Quarteto ou quinteto tinham o ouvido delicado e aptidão musical o ser mestre na arte de compor ornamentos canoros, na medida da harmonia. Cantaram Cuiabá na toada mais afinada: ... Canta o índio, canta a mulata, canta o negro, canta o cor de prata. Todo mundo entre quatro paredes, incentiva a cidade verde. Cuiabá, Cuiabá, Cuiabá, pelas ruas iremos cumprimentar, com orgulho e com satisfação. Cuiabá, Cuiabá, Cuiabá, como és grande no meu coração. O isolamento, o silêncio, o uivo constante do vento norte, o enlevo do verde, o fervor artístico-cultural que vinha da década de 1930, aliciavam o fascínio pela arte musical, personificavam as graças da mocidade simples. O conjunto polido e elegante, brincalhão e satírico, galantemente cantava a natureza cabocla, com lances criativos e pitorescos. A recreação chegava ao Carnaval, quando, nos meses das batalhas de confetes, antecedentes do reinado momesco, apresentava-se com fantasias, ritmando marchinhas da própria criatividade, como esta de Benjamin Ribeiro: Estou preso, preso, preso, sim senhor, ô / Que horror, que horror!/ Abre a janela, encoste a porta,/ oh! tagarela, vê se me solta./ Eu não sei ficar parado, você sabe muito bem,/ Abra o cadeado/ e vamos pular também. No Cineteatro Cuiabá, no esfuziante Domingo Festivo na Cidade Verde, da A Voz dOeste, a Turma do Morro arrebatava a plateia, muitas vezes com improvisos e repentes que jardinavam os aplausos, desentediando o dia a dia da pacata cidade. Descendentes de um professor, o mestre Ribeiro, cuiabano, nascido em 10 de novembro de 1887, vocacionado desde cedo pelo magistério, adquiriu para o colégio um casarão no alto da colina, defronte à Praça da República (local, hoje da sede do Clube Dom Bosco). Com atividade em quase meio século, pelo seu semi-internato passaram ilustres personalidades da vida cultural e política de Mato Grosso. Faleceu com 93 anos de idade, em 1980. O registro do seu nome consta dos anais da educação mato-grossense. Do engenho e arte dos moços vocalistas, coristas e musicômanos, compõem matéria de investigação de elevado interesse da nossa cultura. A Turma do Morro personificou todas as graças da mocidade cuiabana da época, de maneira gratuita e graciosa, arrebatando sentimentos do bom gosto, o enlevo estético e donairoso a preencher espaços vazios da solidão do nosso passado de resistência, no ermo do Centro-Oeste brasileiro. * BENEDITO PEDRO DORILEO é advogado e ex-reitor da UFMT