ARTIGO
Quarta-feira, 25 de Julho de 2007, 20h:39
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RACHEL TEGON DE PINHO
Turismo surpresa Brasil
Cheguei somente domingo à tarde em casa. A empresa aérea escolhida por mim mudou meu itinerário. Saí de Porto Alegre no último sábado 21/07, e pouco mais de uma hora de vôo depois estava sobrevoando Florianópolis que eu só conhecia por imagens e outras formas textuais, mas agora, graças ao turismo surpresa, consegui acrescentar um outro texto/imagem a partir de um céu estrelado. Sobrevoamos Curitiba que também estava na minha outra opção de itinerário de volta e onde pretendia visitar amigos, caminhar pela Rua das Flores e comer um peixe que me fora recomendado. Mas a empresa aérea, indiferente aos meus anseios (e fome), deixou-me a alguns consideráveis metros/olhos/pés distantes disso. São Paulo foi o próximo ponto (de visão ou seria de vista?), que por sinal, estava no meu trajeto oficial, mas que talvez, pensando bem, há dias em que é melhor vê-la assim, bem distante. Já fui a São Paulo para desestressar... sim, desestressar (normal para quem até pouco tempo atrás morava no Pantanal). Imaginei-me caminhando pelo pátio do colégio, começo do começo de SP e na popular esquina da grande metrópole - o cruzamento da Ipiranga com a São João - endereço do primeiro hospício de Sampa (seria a fonte de inspiração de Caetano?) Primeira escala-Campinas, cidade onde nasci e fui apresentada na noite de sábado na perspectiva aérea noturna o que me permite afirmar que conheci uma cidade nova, já que revemos coisas e pessoas, sobretudo pela nossa memória. Campinas vista do alto era uma imagem que não existia em minha lembrança, mas, desejei rever a Campinas que eu conheço e que me conhece desde que nasci. Visitar parentes, matar a sede e a fome. Afinal, precisava alimentar-me. Talvez apreciar algo além do famoso sanduíche de queijo provolone oferecido sucessivamente pela famosa gastronomia "jejum" servida durante os vôos. Finalmente, a conexão: Brasília cidade-dormitório de políticos e que felizmente para os brasilienses (penso eu) desaparecem nos finais de semana. Porém, não era uma conexão, era uma ficada. Não no sentido contemporâneo empregado pelos jovens, que ficam por tesão, desejo, sei lá. O fato é que fui ficada (ou seria fincada?) num cinco estrelas (bancado pela Cia. aérea é claro) onde mal dormi, comi mal e tomei um péssimo banho. Decidi levar uma muda de roupa, afinal no turismo-surpresa tudo pode acontecer, mas, descuidada transportei-a juntamente com duas garrafas de vinho, que se quebraram no ir e vir da viagem. Resumo da ópera: passei a noite experimentando um escalda-mãos (outra novidade) tentando salvar minha camisa branca ex-zero bala, mas tentei me consolar ao ver uma bela banheira que pensei usar para relaxar depois da lavação de roupa, mas o banho de banheira não foi possível. Até que tentei, mas faltava a tampa da banheira, então o jeito foi me contorcer e tomar banho de ducha e ziguezaguear atrás da água, dentro da banheira e... em pé. Enfim, graças a duas cervejas dormi... esparramada numa grande cama, como uma viúva inconformada. Entretanto logo amanheceu e assisti do alto do décimo andar da minha suíte o amanhecer e aí me rendi à esperança, afinal Brasília também é isso, mas no meu caso a esperança era de sair logo dali e chegar em casa. Aeroporto: Alemães, japoneses e todos os demais turistas estrangeiros que a ministra quer atrair para o país através do Aquarela já estavam em terras brasileiras, andando feito tontos como nós, brasileiros. Com a diferença de que nós falamos português. Contudo, nesse caso a democracia reina soberana. Ninguém é informado de coisa alguma, nem em português, que dirá em outro idioma. Lá estavam os turistas, em pé, em fila, sentados ou esparramados pelo chão, pois os aeroportos transformaram-se em uma espécie de dormitórios improvisados (bem que podiam introduzir redários, colchonetes, etc.). Finalmente o embarque, o vôo e a vista sobre o cerrado... Já em casa, tendo o chão sob os meus pés olharei para o alto e sei que em breve verei os ipês pintando como aquarela meu céu, de roxo e/ou amarelo e provavelmente pensarei nas outras, várias tantas cidades que conheci em menos de 24 horas, mas quem liga pra tempo? Acho que só nós historiadores. * RACHEL TEGON DE PINHO é historiadora