Hoje, provavelmente, não conseguirei construir frases que já não tenham sido, de um jeito ou outro, enunciadas antes por alguém e alhures. Mesmo sabendo do diálogo ininterrupto com outros textos e discursos, essa certeza prévia é desesperadora a quem escreve; possivelmente, desanimadora a quem lê. Entretanto, não posso perder a chance de juntar minha voz à de outros que já prestaram suas homenagens póstumas ao escritor e pensador português, ativista social e acima de tudo ao ser humano José Saramago, morto na última sexta-feira (18/06/2010), na tranquila, mas vulcânica Ilha Lanzarotti, do Arquipélago das Canárias, na Espanha. Começo falando justamente dessa escolha do cenário para sua morte: uma ilha vulcânica. Ao fazer isso, mesmo que inconsciente, Saramago acrescentou importante metáfora a sua insubstituível existência vulcânica; afinal, nenhum ateu genuíno passa incólume pela vida em sociedades alicerçadas pela cultura judaico-cristã. Motivo: suas palavras potencializam aos homens de boa vontade a queimada de todas as ilusões humana e ardilosamente criadas, manipuladas. Como poucos, eles compreendem a real dimensão do que significa a força da ideologia, do status quo. A visão social desses raros e corajosos seres é absolutamente ímpar. Por ser minoritária, paradoxalmente, e em outra perspectiva, é óbvio, essa refinada visão social assemelha-se à do bíblico (!!!) João Batista, que insistia em pregar no deserto aquilo em que acreditava. A esses incansáveis seres humanos, como Saramago, nada dos mirabolantes espaços sobrenaturais pode lhes valer como explicação das relações humanas, absoluta e cruelmente sociais. Por isso, afirmo que tais seres são naturalmente mais humanos do que a maioria esmagadora das criaturas que esfolam joelhos em bancos de igrejas e mantêm seus olhos voltados para cima, tentando enxergar alguma coisa na imensidão do universo de suas próprias e fabulosas mentes. Os olhos de Saramago, ou melhor, o olhar de Saramago nunca esteve mirado para cima; esteve voltado aos espaços onde, de fato, podia enxergar alguma coisa, alguma gente. Ao ver alguma coisa ou alguma gente, de chofre, seu olhar via injustiças explodindo como vulcões em erupção a dilacerarem a existência da maioria dos que perambulam pela Terra, mas sem terra alguma. Foi essa visão de vida que o fez se aproximar de tantos companheiros de movimentos sociais de diferentes partes do Planeta. Muitos desses movimentos, como o MST, por ironia, são marcados por místicas religiosas. Assim, Saramago, como um legítimo ateu, mas mantendo o respeito pela fé no sobrenatural que movia tantos de seus desafortunados semelhantes, não sem, fraternalmente, no plano das idéias, pôr em xeque tal visão de vida, pôde ultrapassar as páginas de seus romances e convidar o mundo à solidariedade, rebelando-se contra o status quo que move o próprio mundo. Em outras palavras, Saramago pôde convidar o mundo a rebelar-se contra o neoliberalismo, versão mais atualizada do desumanizador capitalismo, perfeitamente compreendido e explicado por Marx, aliás, outro ser genuinamente ateu e humano; por isso, também insubstituível no limitado rol daqueles que não morrerão para a empobrecida humanidade. Acontece que, de fato, muitos são os convidados, poucos, porém, parecem ter o privilegio da escolha mas própria que se faz para compreender o que seja o ser humano disposto em vida social, em vida real, concreta; logo, árdua e excludente para a maioria das criaturas. Finalizo este artigo, juntando-me ao clichê tão bem lembrado pelo cineasta Fernando Meirelles: "agora, o mundo ficou ainda mais burro e ainda mais cego." Pior do que isso: com poucas perspectivas de ir substituindo as pessoas que teimosamente enxergam além do óbvio que paira sobre a superfície e, por isso, insistem em questionar a dominação capitalista. Ainda bem para a humanidade que o velho Saramago existiu e resistiu. Agora já morto, ele se imortaliza por meios concretos e humanamente criados, como as páginas de seus livros, os vídeos de suas entrevistas, de suas conferências. Esse legado do velho Saramago é um dos fios de esperança e um desafio para a humanidade tentar a reversão do caminho já muito acelerado da autodestruição. Que a primorosa, atéia e, por isso, vulcânica existência de Saramago não tenha sido em vão. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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