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ARTIGO
Segunda-feira, 13 de Outubro de 2014, 19h:51

RODIVALDO RIBEIRO

Toda eleição brasileira é triste

O que entristece mesmo e revolta também é a junção de sentimentos contraditórios aos quais sou submetido a cada eleição. Por um lado, aquela raiva difícil de controlar, que um dia já me fez acreditar em ajuntamentos anarco-punks, horas de discussão sobre técnicas e táticas para estar pronto “quando a revolução chegasse”. Uma fé cega na livre iniciativa e no instinto coletivo nascido da consciência bem-educada; seu contraponto, hoje, é a certeza de que tudo isso era nada além de arroubos de juventude a bater-me na cara ao perceber que o grosso do meu país não mudou um milímetro quando o assunto é percepção coletiva das coisas. O PSDB começou e o PT terminou o leilão pelas consciências e mentes do país: a única coisa que mudou foi o preço. Se antes os mais pobres se conformavam com cinquentão em cash e um milheiro de tijolo e “duas borsa de cimento pro barraco”, agora eles já querem o apto pronto, a possibilidade da faculdade (com uma dívida a perder de vista) e o carro, tudo financiado a prazos “toda vida”. E isso é perceptível em todos os meios por onde transito, no meu bairro (sim, eu ainda moro no mesmo bairro onde nasci, mesmo com dinheiro suficiente -- não, não foi o PT quem me deu, eu trabalho desde os seis anos, primeiro “rezistro em carteira” aos 11 -- pra ir pra um dos tais apartamentos), entre os amigos feitos na faculdade (decepção das decepções na vida, aquele simulacro do Brasil real, o da canalhice afoita, onde as elites juntam seus filhos e determinam seus eleitos e devidos planos para manutenção de si mesmos por ali e suas empregadas nos mesmos quartinhos -- os tais aptos têm a mesma medida deles -- do lado da “área de serviço”), entre amigos reais ou virtuais (me desculpem, por mais ‘de esquerda’ que queiram ser, vocês são parte da elite, sim, ainda que divergente do modelo dito ‘clássico’, ‘sem consciência de classe’ ou blablablá) e a prova disso é o quanto fazem questão de exaltar essa palhaçada que são as eleições no Brasil, com cartas explicitamente marcadas, e ainda assim nominá-las de “festa da democracia”. Nunca foram. E a prova maior disso é o quanto correm pro apoio massivo a um dos “dois lados” (só o mais aloprado petista acredita de verdade que seu grupo é diferente do PSDB, mas quem fala por ele de verdade é o gosto pelos privilégios alcançados por seu grupo) quando a coisa se afunila. Ninguém abre o discurso real (por mais socialista, sociólogo, filósofo, antropólogo ou o diabo que seja): “ei, estão só te comprando por mais um tempinho, não vê que nada na sua vida mudou substancialmente? Eles te abriram as portas pro consumo via dívidas, mas reparou que filhos de gente da sua laia continua morrendo em porta de hospital” (mas o sentimento entre os mais pobres é “e daí? Eu agora tenho dinheiro pra Unimed”)? Que seus filhos seguem sendo assassinados aos milhares e que qualquer decisão que eles tomem lá em cima lhes tira tudo isso num piscar de olhos (reparou que fazem terrorismo com você pra votar neles, porque o “outro lado” vai tirar-lhe tudo, do quartinho de empregada que você orgulhosamente chama de “minha casa minha vida” até o “carro” -- uma porcaria de motor 1.0 e sem itens básicos de segurança -- financiado, passando pelo “emprego de carteira assinada”)? Que a educação que seu filho recebe na escola continua um lixo e não é a mesma que os filhos deles recebem (não interessa de que partido são, nem o quão “socialistas” se dizem, os filhos deles todos estudam nas mesmas escolas, que NÃO são as suas)? Que é no seu bairro que os traficantes exibem armas, carros e mulheres, não no deles? Sabe por que não dizem isso? Porque querem que as coisas continuem exatamente como estão, mas da boca pra fora faz um bem danado (e dá status e algum sentido à própria vida) dizer que está “na luta”, ao que um companheiro/parceiro/amigo/ colega-da-elite vai redarguir “tamo junto na mudança”, “vamos comemorar conquistas, porque o processo é lento”. Claro que é, lento o suficiente pra não acompanhar a dinâmica da própria vida, como um jogador que corre sem sair do lugar quando quer segurar substituição e manter o placar na frente, de uma forma bem malandra, sumamente brasileira: sem jogar, só retendo a bola mas mentindo em público que há, sim, um jogo que não seja apenas de interesses individuais em curso. Não há. E está muito longe de começar! *RODIVALDO RIBEIRO é o editor do DC Ilustrado do Diário de Cuiabá.

Edição EDIÇÃO 16964




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