ARTIGO
Segunda-feira, 26 de Julho de 2010, 20h:00
A
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LORENZO FALCÃO
Tinha 'ouvisto' falar
Você já tinha ouvisto alguém falar disso?. Com certeza, mas a pessoa que falou não tinha cacique pra dizer isso. Uma conversa estranha e assim um pouco assassina do vernáculo pátrio, mas até meio comum de a gente presenciar. E assim introduzo o tema de minhas singelas palavras nesta terça-feira, a última do mês de julho. Você tem certeza de alguma coisa? Pense bem antes de responder, e seja sincero. É que existem expressões que querem dizer algo mais do que a gente realmente quer expressar. E aqui estou a defender o abandono, o esquecimento, a saída de circulação de algumas expressões que estão com a data de validade vencida. Não estou a exigir virtuosismos na arte da fala, do discurso, mas apenas a comentar livremente sobre causos. Lógico que vai nestas linhas aquela dosagem opinativa que costumo empreender em minhas palavras neste espaço. E vamos começar logo, bradando contra o comcertezismo. O com certeza, pra ser correto. Onofre Ribeiro, articulista e cronista das antigas desta terra, tempos atrás, assinava um texto recorrente intitulado Palavras que o tempo comeu. O que registro agora caberia nominar como Palavras que o tempo deveria ter comido. Palavras ou expressões, acrescentemos. É com certeza pra lá, com certeza pra cá e quase sempre, além, ou mais, do que refletir uma opinião. Conversando com algumas pessoas sobre essa minha revolta contra o com certeza, elas concordam que a expressão foi banalizada. O difícil, ao qual me proponho, é tentar restringir o uso e até abandoná-lo por completo, reservando-o apenas para situações de, digamos, absoluta certeza. O ouvisto falar de algo é engraçado e curioso. Parece algo que se ouviu e viu, ao mesmo tempo, e dá-lhe má licenciosidade poética. Pode virar gíria e se tornar palavra dicionarizada com o passar do tempo e forçando um pouco a barra. É hora de concluir. Dizer que não tenho lá muita envergadura moral, meio anarquista que sou, para sair por aí corrigindo quem quer que seja. Não tenho nada de conselheiro acaciano. Mesmo assim, espero lograr êxito. *LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras