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Cuiabá MT, Terça-feira, 16 de Junho de 2026

ARTIGO
Sábado, 26 de Junho de 2010, 15h:41

CESAR VANUCCI

Tempos de Copa

“Só Frank Sinatra, o Papa e eu fizemos o Maracanã calar.” (Ghiggia, autor dos dois gols uruguaios na final da Copa de 50) Em 1950, com dois gols desconcertantes, empatando e depois virando o jogo pra seu país, o atacante uruguaio Alcides Ghiggia, hoje com 83 anos cravados, fez o Brasil inteiro chorar. A seleção brasileira, acumulando triunfos insofismáveis, adentrou o gramado do Maracanã equilibrando-se num baita salto alto. O título – essa a sensação geral – era fava contada. Bastaria um mero empate pra chegar lá. O primeiro gol, do ponteiro Friaça, foi recebido como prenúncio da inevitável goleada que estava por acontecer. Os deuses do futebol, caprichosos, ordenaram algo diferente. Impactante, dolorido pacas. O Uruguai, na base da raça, deitou e rolou em campo, abiscoitando a cobiçada taça. Pelé, maior jogador de futebol todos os tempos, e Ghiggia – vejo no suplemento sobre a Copa de “O Tempo” – encontraram-se num vôo para a África, dias atrás. Um grupo de jornalistas compôs no avião platéia improvisada. O rei contou a Ghiggia que ele fez seu pai, Dondindo, chorar convulsivamente em 50. Nasceu ali, revela o craque, uma promessa de meninote embalado de sonhos: caso algum dia viesse a integrar a seleção, traria o título mundial para o Brasil. Oito anos depois, aconteceu a Copa da Suécia com o primeiro triunfo brasileiro nessa admirável sequência que poderá, dentro de dias, Deus nos ouça, ser enriquecida com o hexa. No avião, Ghiggia afiançou que “Pelé foi um jogador maravilhoso, o melhor que vi jogar, com toda certeza”. Repetiu sentença famosa que o enche de orgulho profissional: “Só Frank Sinatra, o Papa e eu fizemos o Maracanã calar.” Confere. Em tom bem humorado, o presidente da FIFA, Joseph Blatter, afirma que a Copa de 2014 no Brasil poderá vir a ser disputada com larga predominância de atletas sulamericanos, notadamente brasileiros e argentinos. A declaração foi suscitada pela constatação de revelar-se bastante elevado (como parte de um movimento que só vem crescendo nos últimos tempos) o número de atletas naturalizados que estarão envergando camisetas de escretes participantes do torneio na África do Sul. Só brasileiros são seis. Três deles defendendo a seleção de Portugal. Nem a Argentina escapou dessa onda. De seu elenco faz parte um atleta nascido noutro lugar. O futebol está a repetir, nesse particular, o vôlei. Tanto o de quadra quanto o de praia. A situação é considerada preocupante pelo dirigente máximo do esporte das multidões. Joseph Blatter acha que alguma regulamentação precisa ser baixada sobre a questão, mode impedir a criação de um mercado de atletas contratados com a exclusiva finalidade da mudança de nacionalidade. Isso mesmo. Parte da população da África do Sul, país que estampa em suas manifestações culturais notáveis afinidades com o Brasil, rodeia de muito respeito os gurus religiosos comprometidos com as crenças dos ancestrais. Costuma recorrer a eles, como acontece também por aqui, em horas de aflição e de expectativas nervosas. As competições esportivas geram, naturalmente, consultas e apelos. Recolho em “O Tempo” notícia de que um desses profetas, de nome William Mphane, mandou, outro dia, recado especial ao brasileiro Carlos Alberto Parreiras, técnico dos Bafana Bafana. Se Parreira se dispuser a ir ao seu encontro, diz a matéria, ele irá ensinar-lhe um segredo capaz de conduzir o time que dirige à semifinal dos jogos. “Mas, se ele não vier, não chegará nem às quartas de final”, garantiu. A sugestiva notícia não esclarece se Parreiras compareceu ou não ao encontro com o guru. Já um outro “sangoma” sulafricano, John Basheng –a informação é da mesma fonte -, não põe fé definitivamente na seleção de seu país: “Vou rezar por eles, mas para mim, não será possível eles serem campeões.” Alguém propõe a Basheng que ele peça, então, pelo triunfo do Brasil. O guru recusa com palavra incisiva: “Os brasileiros são os melhores, não precisam de reza.” Inevitável o aflorar à mente, a esta altura de tais considerações, aquela sentença magistral, atribuída ao que parece ao folclórico Nenê Pranha: “Se reza braba ganhasse jogo, o campeonato baiano acabaria sempre empatado.” *CESAR VANUCCI - Jornalista ([email protected])

Edição EDIÇÃO 16963




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