Ao longo da semana que passou, além de escrever sobre a Copa do Mundo, conversei bastante sobre economia com pessoas que representam setores diversos no estado. Essa famosa crise mundial chegou a Mato Grosso em doses lentas e graduais. Não chegou de vez como nos Estados Unidos, Europa e Ásia, onde devastou bancos, gigantes da indústria como a General Motors, bancos e gigantes asiáticas como a Toyota e Panasonic. Ao longo da semana três setores gigantes da economia mato-grossense deram sinais de alarme: o algodão, o álcool e a pecuária. A produção de algodão, da qual o estado é líder nacional, perdeu 30%. A pecuária está em crise muito séria, na medida em que a cadeia inteira está. Mas tem um sinal positivo curioso. Todas as crises anteriores na pecuária começavam com o produtor mal posicionado puxando a corrente seguinte. Desta vez, não. Os produtores estão capitalizados, com o gado no pasto, e não devem financiamentos como os agricultores devem. Quem está quebrando são os frigoríficos, porque são vítimas da falta de crédito. Quando um frigorífico exporta, a partir do embarque no porto, demora em torno de 120 dias para o dinheiro chegar ao seu bolso. Nesse intervalo, ele se vale dos financiamentos de exportação. Hoje esse dinheiro não existe porque os bancos privados estão segurando caixa. Na verdade, eles buscavam dinheiro fácil para o crédito no exterior e financiavam todas as cadeias de exportações brasileiras. Sem esse financiamento, os frigoríficos não têm capital de giro e não podem mais comprar do produtor porque o mercado interno de carne não consome toda a produção nacional pecuária. Aliás, os bancos brasileiros agem alienados como se vivessem em Marte. Resultado: os frigoríficos devem fábulas de financiamento aos bancos e estão sem condições de comprar gado no mercado e sem liquidez para pagar aos produtores. Estão operando com 50% da capacidade, se tanto! Muitos estão paralisados e muitos estão quebrando. A expectativa é de que dos atuais frigoríficos restem pouquíssimos. Enquanto isso, o gado continua no pasto. Mas haverá uma hora em que o produtor também precisará de capital de giro. Aí a crise estará fechada em todas as pontas: produção, comercialização, frigoríficos e exportação. Nesta semana realizou-se em Piracicaba-SP um encontro nacional do setor álcool para discutir o futuro do setor em cenário de enorme pessimismo. Em Mato Grosso a destilaria Alcoopan, em Poconé, está em dificuldades, e a de Jaciara, está na mesma situação, ambas falando em paralisação. As demais enfrentam dificuldades diferentes, mas sintonizam a mesma freqüência: dificuldades financeiras e mercado ruim. O agronegócio como um todo ainda não fez o diagnóstico completo da atividade. Se fechar na mesma situação dos três citados, então poderemos falar em crise econômica total em Mato Grosso. No correr da próxima semana voltarei ao assunto sob a ótica das transformações positivas que certamente virão embutidas na crise que, aliás, deve ser entendida como uma passagem de mudanças. * ONOFRE RIBEIRO é articulista deste jornal e da Revista RDM
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