ARTIGO
Terça-feira, 20 de Abril de 2010, 20h:27
A
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ANA ROSA FAGUNDES
Sob a luz da ribalta
Faltam 15 minutos. Sob uma forte luz todos se reúnem para rezar. Apesar de ser entoado um pai-nosso, a oração independe do credo. Ela é, na verdade, só um pretexto para tudo mundo dar as mãos e, numa corrente de energia, estar unidos. O primeiro sinal já tocou, então aquele pai-nosso sai forte, alto. Todos aqueles ali reunidos, uns nem sendo católicos, parecem os mais fervorosos. É o nervosismo, ansiedade, euforia... afinal, as cortinas irão se abrir e todos estarão no palco, diante da plateia. O palco sagrado nos espera. A luz forte que paira sob nossas cabeças bem poderia ser uma luz divina nos abençoando, mas a constatação é apenas a luz do camarim, necessariamente forte para que a maquiagem seja bem feita e os detalhes bem vistos. O último sinal toca e o espetáculo começa. O Ânima, grupo do qual faço parte, estava em cena mais uma vez e dessa vez no Cine Teatro de Cuiabá. Foi a primeira vez nesse lugar, que por sinal é muito bonito, parece até as instalações do Titanic. Depois de anos fechado, passou por uma boa reforma e foi entregue novamente a população. Já ouvi diversas reclamações referentes a qualidade dessa obra, inclusive a de que quando chove, alaga. Para minha sorte nesses dias não tem chovido, por isso para nós foi tudo sublime. As dificuldades de se fazer teatro em Cuiabá são muitas. Os globais vêm para cá e nem fazem esforço para lotar a casa. A certeza de público deles é tanta e a ânsia pelo dinheiro também, que os espetáculos muitas vezes são encenados em lugares impróprios. Há dois meses assisti a uma apresentação na Acrimat, de um grupo lá das bandas do sudeste. Estranho, não? Teatro na associação dos criadores de Mato Grosso. Vida de gado. Acontece que nenhum teatro de Cuiabá tem capacidade par mais de 600 pessoas, já ali na Acrimat as cadeiras - de plásticos, pequenas, sem braços - ocuparam cada centímetro do salão. Jogando por baixo, para não ser leviana, tinham umas mil pessoas naquele lugar. Mesmo quem não estava com o namorado foi obrigado a ficar coladinho com a pessoa do lado, desconhecida ou não. As poltronas não eram dispostas em meia lua, então eu, que não fiquei em frente ao palco, tive que assistir a peça teatral no telão. Sobre a acústica do lugar é melhor nem comentar, não consegui ouvir muita coisa direito mesmo. Vejam que engraçado, pela situação, com o dinheiro da entrada dava para comprar uns três DVDs da peça e assistir em casa, com imagem, som e uma poltrona melhor. Felizmente nos últimos dois finais de semana, nós - aqui de Cuiabá e mais uns dois de VG - conseguimos público para o Cine Teatro. Público que por sinal foi muito bem acomodado nas belas instalações daquele centenário. Conseguimos com folga e sobra pagar a diária de R$ 1500 reais. Mas o melhor de tudo, conseguimos fazer um belo espetáculo e fazer nosso público se divertir e, acima de tudo, nos divertimos. Tão bom quanto ver a platéia satisfeita na sua frente é estar acompanhada em cima do palco de seus amigos. Nossa história foi fortalecida pelas histórias fictícias dos espetáculos. Nosso teatro é por sublimação, é por inspiração divina, é por amizade. Ainda estou em estado de êxtase pelo final de semana maravilhoso que tivemos. Obrigada, meus amigos. Merda para vocês e todos que fazem teatro em Cuiabá. ANA ROSA FAGUNDES é repórter