ARTIGO
Quarta-feira, 12 de Março de 2008, 22h:25
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LUIZ CESAR DE MORAES
Só se deve temer o medo
Eu não creio que Juscelino Kubitscheck fosse totalmente despido de medo, como ele leva a crer num famoso discurso que deixou para a posteridade, inscrito na parede do monumento que o homenageia aquele belo panteão idealizado por Niemayer que fica em Brasília. A opinião não é minha, mas de um amigo meu que duvida do desassombro do ex-presidente Juscelino e faz questão de deixar isso bem claro, com todas as letras de que dispõe. Ao ser provocado acerca de um tema que incomoda meio mundo, não pude me furtar de tomar partido. Nem o dele, nem o de Juscelino, mas um meio-termo que acredito ser o mais prudente. Prefiro me alinhar com aqueles que sabem que o medo existe, mas que deve ser enfrentado por se tratar de sentimento muito prejudicial ao ser humano. Parece que foi Roosevelt, um ex-presidente norte-americano, quem disse que nós só devemos ter medo do medo, evidenciando que o medo é sentimento destrutivo, que impede as pessoas de realizarem os seus sonhos, que às vezes paralisa completamente o ser humano, e que pode até matar, segundo a medicina o que referenda antiga expressão segundo a qual fulano morreu de medo. Os instintos foram dados aos humanos para que nos protegêssemos sempre que fosse necessário. É por isso que tememos atravessar a avenida da Prainha em horário de rush, pois avaliamos com prudência o risco que corremos de morrer atropelados e nos cercamos de todos os cuidados. Há um episódio que ilustra bem a questão do medo e mostra como ele contagia o ser humano. O ator e diretor Orson Welles, de saudosa memória, criou programa de rádio que induzia os ouvintes a acreditarem que o mundo era invadido por extraterrestres. A repercussão foi tamanha nos Estados Unidos, que teve até suicídios por conta do temor da população ao ataque de ETs, e isso se passou com um povo tido como dos mais esclarecidos. Um temor que se comprovou totalmente injustificado, inclusive no decorrer do programa, quando a peça radiofônica era interrompida de tempos em tempos pela produção, que esclarecia que aquilo era apenas rádio-teatro. Mesmo assim, o medo coletivo tirou das pessoas a capacidade de raciocinar e levou-as a cometer todo tipo de desatinos. Quanto aos destemidos de um modo geral, Jotaká aí incluído, é possível que seja apenas um grupo que aprendeu a enfrentar os fantasmas da infância, o sobrenatural cantado em verso e prosa, as situações de risco, enfim, apenas gente que descobriu que precisava não ter medo do medo, que devia enfrentar as situações difíceis da vida, e que percebeu isso desde bem cedo. No frigir dos ovos, o segredo não é não ter medo, senão enfrentar a vida apesar do medo. LUIZ CESAR DE MORAES é editor de Opinião do Diário