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ARTIGO
Sábado, 13 de Junho de 2009, 12h:25

MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA

Ser ou não ser

É chover no molhado, como se diz, afirmar que William Shakespeare, poeta e escritor inglês, revolucionou a dramaturgia universal, dividindo o teatro e as artes cênicas em duas fases: antes e depois dele. Não é novidade também o fato de que ele é o autor de uma das frases mais repetidas em toda a história da humanidade, o clássico “Ser ou não ser, eis a questão”. Particularmente, gosto dessa expressão shakespearana, pelo fato de que, em poucas letras, enxuta, ela tem profundidade e é capaz de nos despertar, chamar fortemente a atenção para tantas dúvidas existenciais que nos cercam. Não a todos, pois que esses dilemas também passam despercebidos por muita gente desatenta para esse tipo de preocupação, digamos, mais para filosóficas do que práticas. Meras divagações, dirão alguns. “Ser ou não ser” não tenta explicar o inexplicável, não é um compêndio filosófico, nem estudo científico, a frase faz parte apenas do contexto de um pequeno poema – na verdade, mais para verso do que poesia -, mas consegue, assim de forma tão simples, direta, sem rodeios, expor nossas fragilidades interiores, sentimentais. Ou seja, desnudar a caveira que existe por trás de nossas faces risonhas ou tristes. Ossos de um crânio que um dia foi uma cabeça humana pensante, carregados pelas mãos de Hamlet, príncipe da Dinamarca, criado pela imaginação de Shakespeare, que mirando a caveira, interroga: “Ser ou não ser, eis a questão”. Querem algo mais emblemático? Em outras circunstâncias, se não fora o talento de Shakespeare, para exprimir a fraqueza da condição humana, dissecar algo tão complexo, talvez fosse necessário bem mais do que um personagem teatral, uma caveira e duas ou três palavras... Muitos outros que se aventuraram pelo tema, na tentativa de analisar as interrogações da alma, escreveram livros e mais livros, longos tratados que, na realidade, não conseguem explicar o que talvez só Deus saiba e que não revelou a ninguém. Inclusive, a seu próprio Filho, que também teve Seu Espírito atormentado, segundo nos mostra a própria Bíblia. Jesus Cristo, além da terrível agonia da cruz, passou pela desdita de ter também seus longos momentos de angústias espirituais. Como ocorreu durante suas reflexões e preces no Horto das Oliveiras e em muitas outras passagens da Sua vida pródiga e santa. Dúvidas e incertezas, aliás, são sentimentos próprios dos seres humanos, e Cristo, o maior de todos, ao se fazer homem e vir ao mundo, por certo operou esse milagre para mostrar justamente isso. Que não temos o monopólio da certeza absoluta. Dúvidas e incertezas assomaram em Shakespeare, que usando da sua genialidade criativa as botou para fora através da boca de um personagem de uma de suas peças teatrais, e também essa insegurança faz parte do estado de espírito de qualquer um de nós, mortais comuns e bons comedores de feijão... Ou daquela macarronada domingueira, que costuma nos esperar, tradicionalmente, neste dia. De preferência, na casa da mamãe, da sogra ou da vovó. Como queiram. Encerro, com minhas muitas dúvidas e louvando minha ignorância. É preferível isso à arrogância intelectual e obtusidade dos “donos da verdade”. Fui! * MÁRIO MARQUES DE ALMEIDA é diretor do site e jornal Página Única [email protected]

Edição EDIÇÃO 16966




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