Semana passada assisti a dois filmes injustiçados no último Oscar. O primeiro foi o DVD de No Vale das Sombras, uma das mais contundentes entre as tantas incursões recentes de Hollywood pelo tema da invasão do Iraque. Depois assisti no cinema a Senhores do Crime (Eastern Promises, 2007). Tanto um como o outro, foram lembrados apenas em uma categoria, a de melhor ator - o primeiro teve a indicação de Tommy Lee Jones, o segundo, a de Viggo Mortensen. Da mesma forma que a produção dirigida por Paul Haggis, no entanto, poderia ter havido mais, muito mais. Neste novo filme de David Cronenberg, o segundo que o diretor fez em seqüência com o ator Viggo Mortensen - o primeiro foi o elogiado Marcas da Violência (2005) - , Mortensen aparece como o motorista de uma família que integra a Vory V Zakone, organização criminosa russa que atua, entre outros locais, em Londres. Mas o espectador de cara percebe que há algo oculto em sua identidade - seus conhecimentos dos procedimentos e das tradições da máfia, bem como as funções para as quais é encarregado, indicam não se tratar do simples condutor do carro dos patrões. E esse é só o primeiro de muitos pontos de uma trama complexa e cheia de sutilezas que vão se revelando aos poucos, conforme a condução primorosa do veterano diretor. Mas a face obscura de Nikolai, o protagonista, é na verdade uma luz em meio à escuridão retratada com maestria pela fotografia de Peter Suschitzky, parceiro de longa data de Cronenberg. Sensibilizado com a história de Anna (Naomi Watts), uma parteira boa-moça que encara os criminosos para salvar a vida de um bebê órfão, o personagem de Mortensen acaba se revelando a única esperança não apenas da criança, mas da própria mulher. O tom com que Nikolai faz a ponte entre o bem e o mal é uma das principais virtudes de Senhores do Crime - e ao mesmo tempo serve de contraponto a Marcas da Violência, filme em que o ator, ao invés do vilão que esconde um lado bom, encarava o homem bom que escondia uma personalidade sombria. A violência também está presente no novo filme - e, mais uma vez, chama a atenção a crueza com que ela é retratada. Mas, como bem sabem os fãs do diretor - conhecido como o mais fisiológico dos cineastas - , nada ali é gratuito. A cena em que Nikolai enfrenta dois assassinos chechenos em uma sauna londrina é um exemplo: a nudez do personagem representa a exposição do homem bom em meio aos vilões, enquanto os ferimentos causados pela luta têm a intensidade da convivência com eles. GUSTAVO OLIVERIA é diretor de redação do Diário
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