A minha verdade ou a sua verdade, a verdade de muitos ou a verdade de cada época? Embora não faltem aqueles que se jactam de ter o monopólio do que seja verdadeiro e absoluto, havendo mesmo por aí à solta os professores de Deus, permaneço imerso em um oceano de questionamentos internos, atrozes, fragilizado diante da velocidade como o mundo se transforma nesta quadra da existência, nesta minha aturdida geração, virando as coisas (e a gente junto) pelos avessos. Operando mudanças do dia pra noite de conceitos em todos os ramos do conhecimento e que antes perduravam por séculos. Como se fossem inabaláveis e imutáveis. Nessas circunstâncias, só me restam pôr no papel mais interrogações, pois que, franca e sinceramente não tenho a resposta para o dilema que me aflige. Ser ou não ser, em absoluto, não é minha questão, mas saber que não sou sábio o suficiente para decifrar o meu próprio eu. De onde vim e para onde vou?! Se alguém souber, que se habilite a explicar. Logo, não tenho a receita de como ser categórico (eis o meu drama), poder dar respostas na ponta da língua ou dos dedos em que dedilho estas modestas reflexões sobre o real significado do que é verdadeiro, exato, e se pode acreditar cegamente, se a cada rotineira revolução nos costumes, a cada novo - e constante - avanço da ciência a gente descobre que está por fora". Fato que aponta no sentido de que a santa ignorância continua grudada em nós igual carrapicho e sempre permanecerá, até que seja demolida por novas descobertas e que serão também logo suplantadas ad infinitum... Essas indagações batem forte em minha cachola, martelando fundo. Ponho-as para fora, a fim de compartilhar tantas dúvidas e poucas certezas que carrego na bagagem, dividindo minhas limitações e angústias filosóficas com os prezados e mui distintos leitores deste espaço dominical. Quando nada, serve para aliviar a cabeça, não querendo, com isso, fazer ninguém de doril. Sei apenas que não sei, mas posso dizer que em nome da verdade muitos se deram bem na vida ao ficarem donos dela, enriqueceram e se tornaram poderosos, enquanto outros tantos que ousaram discordar de iluminados morreram queimados ou trucidados impiedosamente, a mando ou pelas mãos de quem detinha o monopólio da verdade do seu tempo. Casos assim, por exemplo, não faltam ao longo da História e, entre vários, cito o de Giordano Bruno, filósofo italiano, matemático, religioso e homem de fé, que nunca renegou Deus (apenas concebia a existência divina de uma forma mais ampla, cósmica, e não como a de um velho barbudo) e que cometeu o pecado de afirmar que a Terra não era o centro do Universo, mas girava em torno do Sol. Apenas isso, coisa que qualquer aluno da pré-escola já começa a aprender hoje (se é que já não sabe antes), e por essa bobagem Bruno morreu queimado, virou tocha humana numa fogueira acendida pelo Santo Ofício. Isto ocorrendo lá pelos idos de 1600, quando a Igreja ditava todas as regras e havia definido que o planeta era achatado lembrando a forma de uma grande mesa, e não arredondado como uma laranja. Giordano não renegou sua convicção científica e pagou com a vida. A esta altura de minhas divagações, o leitor pode estar se perguntando o que é que ele tem a ver com as preocupações existenciais deste velho escriba, o que isso pode lhe trazer de útil, de prático à sua vida? Respondo: tudo, principalmente se considerarmos o fato de que estamos em pleno ano eleitoral e, como tal, um período fértil, fertilíssimo em pregadores da verdade. Cada qual com a sua e se achando dono dela. Os únicos no pedaço! Cuidado com eles! Mário Marques de Almeida é diretor do site e jornal Página Única. www.paginaunica.com.br E-mail:
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