Acho que roqueiros e guerrilheiros deveriam morrer jovens. De preferência os primeiros de overdose e os segundos baleados numa selva úmida numa noite chuvosa em algum lugar da América Latina e entre seus pertences serem encontrados dois livros: um de Eduardo Galeano e outro de Pablo Neruda. Parece que a morte eterniza as qualidades, esconde as mediocridades e humaniza a brutalidade. Ainda me lembro dos 16 anos, achei lindo quando li que Che Guevara executou um companheiro de guerrilha por uma barra de chocolate. (Marcos que com ele lutou em Sierra Maestra, seu melhor amigo, ao contrário do que muitos falam ser Fidel e Camilo). Carlos Santana, o guitarrista mexicano, gravou um álbum no final da década de 90, que se tivesse sido feito no começo dos anos 70 e logo depois o autor morrido, de preferência bêbado como Jimi Hendrix, teria definido o rock no planeta. Passou despercebido, apesar dos prêmios. Eu revejo o filme sobre o Festival de Woodstock de 1969, e vejo que de 10 apresentações uma presta. Mas o clima de contestação juvenil contagia a todos. Tirando os Stones, roqueiro velho é o retrato da decadência. Dia desses vi os Titãs (que deviam ter parado logo depois do acústico) em um domingo a tarde no Faustão. Percebi claramente que eles tinham saído de um almoço numa churrascaria com os filhos e a patroa e iam depois do show dar uma passada na sogra. Chego a imaginar a mulher falando para a mãe fulano está cansado, trabalhou até agora, a profissão dele trabalha domingo também. Pode isso? Assim é guerrilheiro. Tem de ser jovem pra ter o ódio na alma misturado com poesia. Bolchevismo sem poesia não dá certo nem na política institucional, vira esta coisa Ideli Salvati, Jose Dirceu. Imagina então com um fuzil na mão. Refleti sobre isto lendo notícia que mostra as Farc serem desmontadas pela Operação Colômbia. Uribe faz um acordo EUA, se enche de dólares, mata guerrilheiros e não aparece uma barraquinha nas universidades vendendo camiseta de Manoel Marulanda. Da luta do povo da Palestina tem, não tenho uma porque eles não fazem grande, estou também gordo. Onde estão os protestos e os manifestos de intelectuais contra esta ingerência dos EUA na política interna da gloriosa América Latina? Marulanda, o líder maior da luta armada colombiana, era guerrilheiro há 44 anos, morreu gordo, velho e de coração, tal como também morreram os roqueiros decadentes. Pode? Nos seus pertences não foram achados livros de poemas velhos e folheados à exaustão. Tinha um notebook com planilhas financeiras. Mudou muito. Não era diferente o Reyes que morreu no Equador e nem aquela guerrilheira que se entregou. Este Alonso Cano parece ter mais a aura da década de 60, intelectual, mais velho também. O outro líder que nem o nome a turma da imprensa sabe não tem passado de esquerda. É um traficante de cocaína. Tudo diferente. E para completar, seus seqüestrados também são confusos. Não entendi nada ainda desta Ingrid Betancourt. Se lembrarem ela foi solta no dia da derrota do Fluminense. Aqui em casa sou Botafogo, Zeca (meu filho, atacante pela esquerda, 6 anos), Flamengo e a mãe dele tricolor. Estávamos todos fechados em torno do time brasileiro, numa dura negociação. Garanto que a minha tristeza não foi maior por causa da libertação na Colômbia. Ao ser solta numa operação militar muito mal explicada, apesar de nos primeiros momentos parecer heróica, notei que sua feição não era de quem estava sofrendo e acorrentada. Estava bonita e muito parecida com o que era quando foi seqüestrada há 6 anos. No segundo dia de liberdade declarou apoio político ao Governo Uribe, e no outro o esculhambou, inclusive falando que a culpa de existir a guerrilha é dele. Largou o marido e não fala em reatar com o pai de seus filhos, trazendo a tona, agora com outras versões, a gravidez de sua assistente de um guerrilheiro. Agora vem dizer que viu a invasão do Iraque pela televisão e que assistiu a copa de 2006 e que no acampamento teve torcida para a Itália e para a França (ela tem nacionalidade francesa também) na final. E pior ainda achou certo aquela inconseqüente cabeçada do Zidane no Materazzi que custou aos franceses a Copa. Vamos ter novidades neste episódio. Preparem. * PAULO RONAN é economista
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