Por hábito e por necessidade da profissão, busco ler todos os dias alguns dos jornais do país. Preferencialmente, tento encontrar vozes de colegas das universidades que ajudem a sociedade a refletir sobre os diferentes e complexos temas. Porém, encontrá-las está muito difícil. A opção pelo silêncio que a maioria fez é atordoante. O silêncio dos intelectuais é uma das marcas mais negativas deste momento. Essa opção que transita entre a conivência e a conveniência é um débito social incalculável. Em meio à dificuldade, por ventura, li, na Folha de S. Paulo, em 08/07/10, p. A3, o artigo Uma lei para dividir a nação, da Professora Dra. Yvonne Maggie, da UFRJ. A docente relata que acaba de ser aprovado no Senado, por meio de acordo entre lideranças, o Estatuto da Igualdade Racial. O projeto original do Senador Paulo Paim (PT/RS) propunha, entre outros itens, cotas raciais para negros nas universidades e políticas racionalmente definidas nos sistemas de saúde e educação. Por sua vez, A nova redação, elaborada pelo senador Demóstenes Torres (DEM-GO) exclui as cotas raciais e substitui o termo raça pela expressão etnia. Retira também parte substancial dos itens referentes à saúde e ao estímulo à criação de uma identidade negra. Na sequência do artigo, entrevê-se que isso é demonstração de que não há consenso sobre a matéria. Ativistas afro-descendentes, p. ex., reclamam que a espinha dorsal do projeto fora quebrada. De sua parte, diz Maggie, o ministro-secretário da Secretaria de Políticas de Promoção da Igualdade Racial declarou que o estatuto guarda-chuva, tendo aprovado as ações afirmativas, aprovou também a política de cotas e estas poderão ser implantadas sem passar pelo Congresso Nacional. Para Maggie, essa postura do governo é um golpe na pretensão dos senadores que não aprovaram as cotas raciais. Mais: que se o estatuto for sancionado pelo presidente Lula, será a primeira lei racial de nosso país, pois carrega no seu nome e em seus princípios raça ou etnia como critério de distribuição de justiça... Se a intenção dessa lei é produzir um país mais igualitário, o resultado será o oposto. Será mesmo. Também já me posicionei contrário a encaminhamentos à lá politicamente corretos que buscam resolver dividas históricas, a partir de marcação racial. O governo Lula/PT promove e provoca hoje graves problemas que explodirão no porvir. O Brasil tende a ser um dos países mais explicitamente preconceituosos em termos de raças e/ou etnias. Em breve, nos olharemos, antes de tudo, a partir de nossas cores, marcadamente pretas e brancas. Será uma tragédia. E como tem sido difícil explicar a alguns líderes de movimentos afros que o maior problema de exclusão é o econômico, não racial. Mas como confirmar essa premissa? Pelo cotidiano. Alguns exemplos estiveram presentes na publicidade da Copa/África. Personagens negras, mais do que brancas, foram acionadas por várias empresas. Além de negros anônimos, registro dois exemplos de famosos: Pelé, que contracenou com a branquíssima Gisele Bündchen, e Robinho que, solitário, vendeu de celular a automóvel. Foi o garoto propagando deste time. Pergunto: teria sido comum à maioria de nosso povo, envolvida de corpo e alma pela Seleção, agredir, ainda que subjetivamente, os dois heróis do futebol por eles serem negros? Quantos desligaram as TVs, quando ambos ajudavam a empurrar algum produto? Provavelmente, poucos. Contudo, Pelé e Robinho continuam como nasceram: negros. Acontece que por conta de suas habilidades, eles forram alçados ao plano de heróis populares. Assim, a cor dos dois foi apagada à medida que suas contas bancárias também se tornaram bem superiores às de muiiiiiiiitos brancos. Contas brancas!!! Mais: onde aqueles atletas aparecem são abraçados; assinam autógrafos: tapetes vermelhos a eles. Porém, o negro pobre, assim como o branco pobre, que não tiver projeção positiva midiática e tampouco conta bancária respeitável, esses, sim, correm riscos de manifestações patológicas (violências) por parte de algumas criaturas, quando não de autoridades policiais. Agora, com esses encaminhamentos políticos, levados a ferro pelo governo, regrediremos nessa difícil caminhada entre diferentes e desiguais seres humanos. E o governo Lula/PT, neste quesito, também só tem atrapalhado. *ROBERTO BOAVENTURA DA SILVA SÁ - Dr. em Jornalismo/USP. É Prof. de Literatura da UFMT
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