ARTIGO
Terça-feira, 08 de Julho de 2014, 20h:49
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ADEMAR ADAMS
Réquiem para o galego Marcelino Castro
Quando se perde um amigo a quem não se pode dar um adeus, e quando dele se estava longe por longo tempo, a dor da perda parece maior, pois fica uma lacuna que jamais será preenchida. É este o sentimento que tive ao receber a notícia da morte do galego Marcelino Ramon Rodrigues Castro. Conheci este espanhol no final dos anos 70, quando eu ainda vivia às margens do rio Juruena, em Ariel, e ele já morava em Porto dos Gaúchos. Cuidava de umas terras que tinha adquirido com alguns amigos, com o dinheiro economizado em anos e anos ralando no balcão do bar que tivera na Av. Paulista, em São Paulo. Nascido na região da Galícia, tinha emigrado da Espanha nos anos 50. Reclamava sempre da miséria a que o ditador Franco submetera o povo espanhol que era forçado a ir trabalhar longe da sua família, para enviar dinheiro e matar a fome dos que ficavam. Morou inicialmente no Uruguai, onde conheceu sua esposa, dona Flora Estraviz, também espanhola. Após o casamento, mudaram-se para a Capital paulista. Cansado da cidade grande, veio para o sertão para ser feliz como um simples labrego (colono) como ele se autointitulava. A esposa não quis vir com ele e a distância acabou por separá-los definitivamente, mantendo-se apenas amigos. Os três filhos ficaram com a mãe e, com a ajuda do Marcelino, se formaram e cada um achou o seu caminho. Há alguns anos ele perdeu o caçula, num acidente em Santa Catarina. Acompanhei seu sofrimento com a perda daquele filho, o único que conheci. Homem de muitas leituras, tirou dos livros uma cultura geral apreciável, que tornava animada qualquer conversa com ele. Quando me mudei para o Porto, continuei a privar da sua amizade, a qual perdurou também nesses 25 anos da minha mudança para a Capital. Falávamos de política, e em geral brigando muito. Ele era uma homem conservador, de centro, e aí o pau comia, mas eram umas brigas fraternais, das quais sentirei muito a falta quando for ao Porto. Encontrar-me com ele em sua casa ou nos almoços no Flutuante era um prazer de que desfrutei por longo tempo. Nos últimos anos tínhamos a companhia de sua nova esposa, Dona Lú, uma mato-grossense muito agradável, que ajudou o Marcelino a remoçar, a fazê-lo feliz como merecia, tirando-o de uma solidão de muitos anos. Será triste ir a Porto dos Gaúchos e não encontrar o Galego. E é uma pena que ele não se deu ao trabalho de colocar no papel as histórias do seu burgo, a vila de Novo Paraná onde conviveu com seus personagens, os trabalhadores dos seringais e povo do vilarejo, como o delgado a quem ele se referia carinhosamente como o nosso truculento. Ele descrevia os acontecimentos com um estilo parecido com o do escritor Jorge Amado, fruto das leituras dos livros do famoso autor baiano. Marcelino é o terceiro dos meus amigos de antigamente, daquela região, que perco. Primeiro foi Emanuel Jurkulák, depois o seu Dominguinhos de Goes. E assim a terra de Willi Meyer vai ficando cada vez mais triste para mim. Marcelino gostava de declamar alguns trechos de poemas da poetisa Rosalía de Castro, galega como ele, que acompanhando o marido para outros países, fez das suas dores, copiosa poesia chorando as saudades de sua Galícia. Por isso termino esta homenagem com versos dela, na língua galega que ajudou a fazer renascer, que bem poderiam estar numa fala deste amigo, despedindo-se das suas roças na região do rio Engano. Adiós, ríos; adiós, fontes; Adiós, regatos pequenos; Adiós, vista dos meus ollos: Non sei cando nos veremos.