ARTIGO
Segunda-feira, 12 de Novembro de 2012, 21h:35
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LORENZO FALCÃO
Remédios
Conheço um sujeito que estava numa ressaca braba. Aquela dor de cabeça que parecia que ia explodir e lançar a tampa da cabeça para o espaço. Não conseguia nem se levantar da cama, quanto mais falar... Saía de sua boca um grunhido algo ininteligível. Sua esposa não estava em casa e a ajudante do lar, percebendo a situação do patrão, foi dar uma força. Pelo menos tentar. Aproximou-se da cama onde estava aquela coisa pós-alcoólica pra ouvir o que ele dizia. Entrou em pânico, pois o sussurro que escutou parecia nome de mulher. Será uma amante? Coitada da patroa tão boa... Qual nada... o morto-vivo pedia socorro com a voz empastada: "Ne-o-sal-di-na", pelo amor do Senhor. Remédio é a tônica da conversa. Não sei direito, mas essa palavra tônica, talvez no meu subconsciente, está associada à água tônica. Refrigerante que pode remediar alguns sintomas, já que tem quinino, usado para a malária. Se não tiver água tônica, "remedeia co que tem", expressão carregada pelo nosso sotaque regional, que também é título do livro de Guapo, musicista e pesquisador destas bandas. Remédios, a bela. Personagem do emblemático livro de García Márquez, escritor colombiano, "Cem anos de solidão". Uma obra sem placebos que marcou gerações. Minha memória não consegue registrar nenhum livro que tenha sido tão impactante, pelo menos para as pessoas da minha geração. Cibalena, Engov, Benzetacil, Emulsão de Scott, Vagostesil... Este último me ajudou a me acalmar quando enfrentei o meu primeiro vestibular. Hummm... Sonrizal, e depois Estomazil. Tive um amigo que adorava Estomazil. Dizia que tomava desde criança o antiácido, mas que largaria quando bem quisesse. "Intantil... intantil". Pedia o filho de outro amigo, ainda muito pequeno sem nem saber falar direito. O Melhoral infantil fez a cabeça de muita gente pequenina. Na bela poesia Juca Mulato, de Menotti Del Picchia, o personagem reluta em revelar os motivos da sua dor, até que o faz. "Arrasta contigo essa tortura imensa/que o remédio é pior do que a própria doença,/ pois, pra se curar um amor tal qual esse...". Em resumo, para o mal de amar, o remédio que é esquecer, dói mais do que amar. Aqui no meu estabelecimento doméstico, além daqueles medicamentos que invadem a vida dos cinquentões, tem tido muita saída, um remedinho caseiro, natural, que passei a tomar quase todos os dias quando migro da sala pro quarto, do laptop pra TV. Chá de camomila... é pá, bosta... derruba mesmo. E dá licença, que vou botar água pra ferver!!! LORENZO FALCÃO é editor do DC Ilustrado e escreve neste espaço às terças-feiras www.tyrannusmelancholicus.com.br