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ARTIGO
Sexta-feira, 22 de Junho de 2007, 20h:05

GIRLENE RAMOS

Quando não há a quem recorrer

Preocupa-me a crise ética e a banalidade em que hoje se considera a vida. Educar um filho é cada dia mais angustiante e um permanente desafio. A criminalidade está ganhando corações e mentes, apesar dos desejos dos pais de que seus filhos sejam honestos, trabalhadores e bem sucedidos. A família vem aos poucos perdendo o sentido para muitas crianças que procuram o sustento ou mesmo a “felicidade” nos caminhos tortos da vida. As drogas vêm ocupando espaços, cada vez maiores, nas ruas, nas casas e nas escolas, dentre outros lugares. Em qualquer um dos espaços a reação é a mesma: despreparo! Nós, pais e professores, não sabemos como enfrentar e socorrer os nossos filhos. Estamos a cada dia perdendo-os. Crianças estão comercializando drogas, tentando viciar outras crianças. Quem pode nos ajudar? Não sei. Nós não sabemos a quem recorrer! Acredito que haja realmente despreparo dos professores frente a este problema de saúde pública que leva o governo a gastar muito nos atendimentos a pacientes que necessitam de socorro. Mas por que o governo não torna mais próximas aos pais as ações que por ventura estejam sendo executadas? Meu filho de coração, portador de necessidade especial e usuário de medicamento controlado por receita médica foi vítima. Felizmente, o Pronto Socorro de Cuiabá o socorreu a tempo de evitar um óbito. Fico imaginando como pode um ser humano tentar viciar uma pessoa especial que não tem condições de se defender? A criança especial tem muitas dificuldades de serem aceitas nas escolas regulares públicas (sempre procurei pública; pode ser que as privadas também tenham o mesmo comportamento), como bem retratou a novela “Páginas da Vida”, apesar de ser “direito” deles à escola. Quando encontra uma porta aberta ainda corre o risco de começar o pesadelo, como o meu que se iniciou numa escola da rede estadual de ensino na capital. Eu não sei mesmo como a sociedade aceita esse estado de coisas, que nos violam no mais sagrado direito, o de viver adequadamente. Poucas vozes se levantam para lutar e somar forças a fim de combater esse estado de insegurança, de crueldade e de violência no qual nós vivemos. Os parlamentares fazem leis, muitas sem serem cumpridas. O executivo executa “ações previstas na Constituição Federal” a fim de prevenir e reprimir o tráfico ilícito de entorpecentes e drogas afins, o contrabando e o descaminho, sem prejuízo da ação fazendária e de outros órgãos públicos nas respectivas áreas de competência (CF, 1988). Mesmo assim, me pergunto, por que não chamar a sociedade para discutir e definir ações de maiores sucessos? O direito constitucional previsto no artigo sexto (são direitos sociais a educação, a saúde, o trabalho, a moradia, o lazer, a segurança, a previdência social, a proteção à maternidade e à infância, a assistência aos desamparados, na forma desta Constituição) grifos nossos, estão cada vez mais ameaçados. Eu sei que é obrigação dos pais educarem os seus filhos. Mas qual educação vamos dar se grande parte dos pais tiveram uma educação fragilizada ou na maioria das vezes são analfabetos? As mudanças são lentas, o Brasil tem que dar comida tanto quanto educação. O preparo dos trabalhadores da educação precisa estar à altura desses e de outros desafios. Os nossos filhos precisam ir para as escolas e lá serem educados ao conhecimento com atenção, carinho e protegidas. Isso se pode exigir quando os profissionais são valorizados, preparados e bem remunerados, o que não é nossa realidade. Faço votos que as mães possam amparar os seus filhos “perdidos” para o crime e as drogas. Por enquanto quero ensinar o meu filho especial que já sabe o certo e o errado a saber reagir frente às situações de exclusão e de aliciamento. * GIRLENE RAMOS é ex-presidente do PT, bióloga e pós-graduada em Gerência de Cidades

Edição EDIÇÃO 16967




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